Luzes e cores dos saberes universitários

Raphael Pizzino* (UFRJ)

A minha relação com os saberes circulantes da comunidade acadêmica me ajuda constantemente a nutrir um pensamento crítico: a ter consciência de classe, a identificar o meu lugar de fala, a entender a importância da pesquisa, a compreender a necessidade das políticas afirmativas e a encontrar uma missão máxima que orienta todas as minhas ações enquanto servidor: defender a universidade pública, gratuita, laica e de excelência. Em suma, essa relação constrói quem eu sou, minha forma de perceber o mundo, molda os meus valores e as minhas motivações. Mas isso não acontece de uma forma tão romântica e plena quanto pode parecer. A universidade, esse lugar, essa ideia, esse conceito tão grandioso e sábio, é também um espaço cheio de contradições.

Em maio de 2011, tomei posse no cargo de assistente em administração da UFRJ. Fui o 81º colocado do concurso público, mas na época eu não tinha a menor noção do que representava ser nomeado logo na primeira convocação, mesmo não estando entre os primeiros colocados. Eu não sabia que isso significava que a universidade estava investindo pesado para crescer e para garantir a estabilidade dos cursos e das vagas recém-criadas pelo Reuni. Não sabia que estava vivenciando um clima de grande otimismo da instituição (tão distinto dos dias de hoje, em que as palavras “ataque”, “desmonte” e “cortes” habitam um lugar tão obscuro quanto certo do nosso imaginário). Na verdade, eu não fazia a menor ideia do que era a UFRJ nem da dimensão dos impactos de suas atividades. Com meus 23 anos, sabia menos ainda de que forma eu iria contribuir, quais seriam de fato as minhas atribuições ou de que forma eu estaria mudando a minha vida.

A partir daí, a fotografia naturalmente se tornou o meu principal foco de interesse e foi então que percebi que poderia me desenvolver mais e, ao mesmo tempo, ser mais produtivo para a universidade, se desempenhasse minhas funções em outro setor. Graças a ajuda de técnicos administrativos conscientes da realidade da universidade, consegui, três anos atrás, ser transferido para a Coordenadoria de Comunicação da UFRJ, finalmente podendo atuar na minha área de interesse e de formação, onde, sem sombras de dúvida, sou muito mais produtivo e realizado. Comecei a minha atuação na Coordcom explorando o campo do fotojornalismo, me tornei subcoordenador e hoje coordeno as equipes de mídias sociais, de fotografia e de publicidade. O curso de desenvolvimento de servidores se tornou um projeto de extensão aberto para toda a sociedade, o curso “Fotografia Contemporânea”.

Agora, com quase dez anos de universidade, consolidado como servidor do setor de comunicação e com trabalho reconhecido, me deparo com um paradoxo: como posso já ter vivenciado tanta coisa do mundo acadêmico, ter tido tanto apoio no desenvolvimento pessoal e profissional, e ao mesmo tempo ainda ter enorme dificuldade de me enxergar como membro da comunidade na condição de discente ou de ter o que pode ser considerada a ousadia de almejar a docência no futuro? Que qualidades são essas que me fazem tão diferente dos docentes? Por que não sinto o mesmo apoio institucional nessas questões?

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