Gustavo Cravo* (UFRJ)
Escrevo esse texto em plena comemoração dos 100 anos da UFRJ. O momento é ideal para conectar passado e presente e dessa forma pensar e planejar o futuro.
Nesse clima, li o livro “Novos Atores na Cena Universitária”, do autor João Eduardo Fonseca, que já foi dirigente da ASUFRJ, hoje SINTUFRJ, e foi nosso primeiro técnico-administrativo a ocupar um cargo de Pró-Reitor. O cargo foi ocupado na gestão do reitor Horácio Macedo, gestão também marcada por grande aumento das ações de extensão da UFRJ e das iniciativas em nosso território vizinho, a Maré. Como dizem muitos amigos e amigas, técnicos e técnicas há mais tempo na universidade: “Saudoso Horácio Macedo!”.
João vem falando em algumas lives que, para nossa sorte, estão gravadas. Recomendo a leitura do livro completo, é claro, e também as lives recentes que ele participou no Festival do Conhecimento da UFRJ e no curso O Ser e o Fazer dos Técnicos Administrativos em Educação, ambas no 2º semestre de 2020. Uma sorte estar fazendo essa leitura de maneira síncrona às falas do autor e colega técnico (hoje aposentado, mas ainda ativo nas contribuições e reflexões à categoria).
Sou técnico administrativo há 10 anos na UFRJ, trabalho na Pró-Reitoria de Pessoal, e trabalho com divulgação técnica e científica da produção da categoria. Faço parte da geração de técnicos que entrou há relativamente pouco tempo na universidade, fruto da expansão das universidades federais realizada na década passada. Somos chamados de nova geração de técnicos. Percebo, e não tenho essa percepção sozinho, que houve uma mudança de perfil. É preciso compreender esse perfil para planejar o futuro da contribuição da universidade para a sociedade inclusive. Se há colegas técnicos muito bem formados, há antigas amarras que atravessam gerações de trabalhadores na universidade nessa instituição hierarquizada, verticalizada e rígida em que estamos. Uma pergunta comum às duas gerações, e que infelizmente ainda se faz presente: como superar a subalternidade?
Fiquei feliz com a leitura desse livro porque aprendi muito com esse precioso registro histórico. Nesse curto texto, não será possível abordar tudo o que o livro traz. Fica a sugestão de que para aprender sobre o momento em que estamos, de ocupação de lugares institucionais, de nosso atual plano de carreira, de nossas atuais ambições como assinar os projetos e pesquisas que coordenamos, é preciso olhar para o caminho feito até aqui.
Nem sempre fomos servidores estáveis, aliás, tema na ordem do dia. E nem sempre fomos técnicos administrativos em educação. Já fomos servidores integrantes do Plano de Cargos Civil (PCC) antes de sermos uma categoria específica. Já fomos funcionários e hoje somos servidores, algo que vai além de uma simples mudança de nomenclatura. Já ganhamos menos do que o salário mínimo da época. Já houve diferença financeira significativa entre ser um trabalhador administrativo em uma universidade autárquica ou fundacional quando não havia a isonomia salarial tampouco um plano de carreira único. Antes dos atuais sindicatos locais que juntos compõem a FASUBRA, já fomos representados por associações que eram muito pouco combativas. Somente com a Constituição Federal de 1988 ganhamos o direito de nos organizarmos em sindicatos e não somente em associações.
Há muita história para contar aí. Recuperar discussões que já aconteceram para não escorregarmos nas mesmas “cascas de banana” que nos jogam. Se já houve uma discussão que passou pelo Congresso Nacional e pelo Ministério da Educação e que entendeu, dito de maneira resumida, que para se alcançar a excelência acadêmica, é necessário investir numa excelência acadêmica dos trabalhos administrativos. Esse movimento legitimou a criação da categoria dos técnico-administrativos em educação, em conjunto, é claro, a muita luta de nossos colegas. Precisamos encarar de forma muito crítica quando esse ou qualquer outro governo propuser de maneira simplista a redução do número de carreiras. Há um motivo para sermos técnico-administrativos em educação. E é um orgulho. Precisamos carregar isso conosco. Possivelmente precisaremos dessa energia nos desafios que possam vir a surgir.
A primeira vez que passei o olho no plano de carreira anterior ao atual PPCTAE, o PUCRCE, achei muito confuso. Hoje, após a leitura do livro, tenho a noção de que o plano antigo não era perfeito, mas foi o possível politicamente no momento. Além disso, quero registrar aqui que o PUCRCE foi um esforço magistral e colossal de mapeamento do trabalho técnico administrativo na universidade. Imagina você mapear a complexidade desse trabalho pela primeira vez, com todas as universidades autárquicas e fundacionais na época. Muito impressionante, não é mesmo? Em um país com dimensões continentais aonde, em alguns campus, até hoje você só chega de barco. A leitura do livro do João aperfeiçoou muito uma leitura de universidade que eu já vinha construindo: se você quer olhar para a complexidade do trabalho da universidade hoje, olhe para a diversidade do trabalho de seus técnico-administrativos.
* Técnico em Assuntos Educacionais da Pró-Reitoria de Pessoal da UFRJ e Editor da Revista Práticas em Gestão Pública Universitária
