Tatiana dos Anjos Magalhães (UFF)
Diante da intensificação dos ataques a universidade pública e ao seu corpo de trabalhadores, refletir sobre a saúde mental dos servidores técnico-administrativos em educação é essencial. Neste sentido, este texto busca expor alguns conceitos chaves do campo da saúde do trabalhador, especificamente da relação entre saúde mental e trabalho; bem como apresentar os resultados de algumas pesquisas que trataram do tema da saúde mental dos servidores técnico-administrativos das universidades públicas. Com isso, espera-se favorecer o debate do tema entre os trabalhadores e socializar as pesquisas já existentes.
Inicialmente, é salutar recuperar o conceito de trabalho e sua centralidade vida, que é o conceito defendido pelo campo da saúde do trabalhador influenciado pelo Movimento de Medicina Social Latino-americana (MINAYO-GOMEZ; THEDIM-COSTA, 1997). Para a teoria marxista, o trabalho é a atividade do homem na qual ele transforma a natureza e a si mesmo (MARX, 1983). A função criadora do trabalho terá influência direta na saúde mental dos trabalhadores, sendo o trabalho um potencializador da saúde ou um causador de adoecimento mental nos trabalhadores (LAURELL; NORIEGA, 1989).
O trabalho nunca é neutro diante da nossa saúde mental, ele pode ser um gerador de saúde ou um impulsionador das situações de sofrimento (DEJOURS; MELLO NETO, 2012). Diante disso, a discussão da relação entre trabalho e saúde/adoecimento é vista como processual para o campo da saúde do trabalhador, sendo seu objeto “o processo de saúde e doença dos grupos humanos e sua relação com o trabalho” (MENDES; DIAS, 1991, p. 347). Os modos de trabalhar influenciam os modos de vida e adoecimento das populações, assim, o processo de trabalho não é um processo a- histórico ou natural, ele é considerado um processo social (LAURELL; NORIEGA, 1989).
Para essa matriz de pensamento, o processo de trabalho é entendido como um determinante do processo saúde- doença das coletividades (LAURELL, 1993). Com esse entendimento, Laurell (1993) propõe o deslocamento do processo de saúde-doença de um processo bio-psíquico para um processo social. Neste sentido, o mesmo entendimento ocorre para as doenças tidas como psíquicas, elas também precisam ser entendidas na sua relação com o processo de trabalho. Como esses conceitos nos ajudam a pensar o processo de trabalho dos TAEs nas universidades?
Saúde mental dos servidores técnico-administrativos
A saúde mental dos servidores públicos tende a ser vista de forma singular por meio de perícias individuais, descontextualizadas de seus processos de trabalho, e o servidor é visto como fraudador de licenças médicas (CARNEIRO, 2006; RAMMINGER; NARDI, 2007). Marques et al (2011) realizaram uma pesquisa na Universidade Federal do Espírito Santo com o objetivo de discutir o absenteísmo doença entre os trabalhadores. Os resultados da pesquisa evidenciaram que os transtornos mentais são a principal causa de afastamento no trabalho entre os servidores públicos.
Diante dos dados evidenciados por tais pesquisas, cabe ir além da análise diagnóstica para identificar quais são as causas no processo de trabalho dos servidores técnico-administrativos que são provocadoras desse adoecimento relacionado ao trabalho. Apesar de ainda existirem poucas pesquisas acadêmicas sobre a saúde mental dos servidores técnico-administrativos, alguns autores percorreram esse caminho que nos ajudam a pensar sobre esse assunto.
Em 2010, foi publicado um artigo sobre o processo de trabalho dos servidores atendidos pelo Serviço de Prevenção e Apoio Sócio- Funcional, vinculada a Departamento de Recursos Humanos da Universidade Federal Fluminense (MARQUES; PINTO, 2010). Na pesquisa foram evidenciadas que as maiores demandas de atendimento entre os anos de 2007 e 2008 foram referentes a conflitos com a chefia e a saúde dos servidores, em especial a saúde mental. Marques e Pinto (2010) relataram em seu artigo que a partir dos atendimentos realizados foi verificado que o processo de adoecimento mental dos servidores possuía como determinantes as condições de trabalho, além das relações de poder instituídas na Universidade.
De 2010 até agora ainda são escassos os números de pesquisas sobre o adoecimento e a saúde mental dos servidores técnico-administrativos, entretanto alguns avanços já foram produzidos. A seguir foram mencionadas algumas pesquisas que trataram do tema e seus principais achados, sendo possível aqueles que se interessarem se aprofundarem na leitura de seus artigos.
A pesquisa de Loureiro (2017) analisou o trabalho e sofrimento dos assistentes em administração de uma Instituição Federal de Ensino Superior em São Paulo, evidenciando que a intensificação do trabalho, a flexibilização e precarização das tarefas, o alongamento da jornada, as exigências e cobranças por resultados tem contribuído para a desvalorização e sofrimento dos trabalhadores. Algumas manifestações desse sofrimento foram: enxaqueca, problemas gastrointestinais, ganho de peso, além dos acometimentos mentais como insônia, ansiedade e depressão, ainda foram mencionados acometimentos dermatológicos relacionados ao estresse (LOUREIRO, 2017).
Coimbra e Barros (2016) realizaram uma pesquisa com os servidores da Universidade Federal do Espírito Santo e relataram alguns fatores da relação de trabalho dos servidores técnico-administrativos. Dentre as situações mencionadas pelos participantes da pesquisa, foram relatas a relação entre docentes e técnicos- administrativos, a falta de estrutura física, excesso de cobrança (COIMBRA; BARROS, 2016). A pesquisa também constatou a importância dos coletivos de trabalho, demonstrando a importância da criação dos espaços coletivos de diálogo sobre o trabalho.
Outro aspecto que intrínseco ao trabalho na Universidade e que influencia a saúde mental dos servidores técnico-administrativos são os diferentes modelos de gestão implementados no trabalho. Loureiro et al (2017) analisou a relação entre o prazer-sofrimento no trabalho e os modelos de gestão. Na referida pesquisa, os entrevistados mencionaram a alta rotatividade das chefias como constantes na Universidade, também foram mencionadas as influências políticas e a burocracia como fatores de sofrimento (LOUREIRO; DE SOUSA MENDES; PINTO E SILVA, 2017).
Faria et al (2017) realizou uma pesquisa com os assistentes em administração de um Instituição de Ensino Superior em Minas Gerais para estudar a relação entre saúde e trabalho de tais servidores. O impedimento do trabalho, a interferência negativa da política no processo de gestão do trabalho, limitação do poder de agir, importância do reconhecimento foram mencionados como aspectos que causam sofrimento no trabalho (FARIA; LEITE; SILVA, 2017).
Ao investigar o desgaste mental dos servidores técnico-administrativos de uma universidade pública em Niterói, Magalhães e Rotenberg (2020) constataram que prazos, relação com a chefia, falta de comunicação com a equipe, burocracia institucional entre outros foram mencionados como potencializadores do desgaste mental no trabalho. Por desgaste mental entende-se a perda da capacidade corporal e psíquica do trabalhador durante o processo de trabalho, corpo e mente são consumidos durante esse processo (LAURELL; NORIEGA, 1989; SELIGMANN- SILVA, 2011).
Quando o trabalhador enfrenta situações de sofrimento ele tende a procurar formas de lidar com tais situações, essas “saídas” buscadas pelos trabalhadores são chamadas por alguns autores de estratégias de defesa ou defesa. Para Seligmann-Silva (2011), as defesas são utilizadas pelos trabalhadores para escapar ou tornar o sofrimento suportável. Dejours e Abdoucheli (2007) também teorizaram sobre a capacidade de reação dos trabalhadores diante das situações do sofrimento, tratadas pelos autores como estratégias defensivas.
Ao se deparar com as situações de sofrimento no trabalho, os servidores tendem a buscar saídas individuais, muitas vezes por falta de apoio institucional. A remoção e as equipes de trabalho têm sido utilizadas como um recurso para fugir das situações de sofrimento no trabalho (LOUREIRO; MENDES; SILVA, 2018; MAGALHÃES; ROTENBERG, 2020).
Cabe notar que alguns fatores de adoecimento são recorrentes em algumas das pesquisas elencadas, tais como: prazos, excesso de cobrança, intensificação do trabalho, jornadas, metas e estrutura física, que está relacionada as condições de trabalho dos servidores técnico-administrativos. Por condições de trabalho, Dejours e Abdoucheli (2007) entendem se tratar das “pressões físicas, mecânicas, químicas e biológicas do posto de trabalho” (p. 125). Assim, os prazos, metas e exigências fazem parte das condições de trabalho aos quais os TAEs estão submetidos e influenciam diretamente a saúde mental desse grupo de servidores.
Atualmente, os servidores técnico-administrativos em educação das universidades se encontram realizando trabalho remoto durante uma pandemia de Covid- 19, que já matou mais de 150 mil pessoas no Brasil. Como senão fosse exaustivo demais essa situação, os TAEs enfrentam mais uma ofensiva de retirada de direitos por meio da proposta de Reforma Administrativa e pelas Instruções Normativas 28 e 65.
Neste cenário, discutir os aspectos da relação entre trabalho e saúde mental dos servidores públicos das Universidade pode auxiliar na construção de estratégias que busquem o fortalecimento da saúde mental dos servidores para que assim seja possível enfrentar tais ataques. Principalmente, buscando mudanças coletivas na organização e condições de trabalho as quais os TAEs estão submetidos na universidade, partindo de uma construção coletiva de propostas de enfrentamento as situações de sofrimento mental. Um ponto que não foi mencionado nesse texto, mas necessita urgentemente de um debate e pesquisas que aprofundem o tema, é as implicações do assédio moral na saúde mental dos servidores.
Tatiana dos Anjos Magalhães é Assistente Social da Universidade Federal Fluminense- UFF (Niterói)
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