Paola Meirelles (Unirio)
Agora que já conhecemos um pouco da biografia e da relação de Nelson Cavaquinho com a indústria fonográfica, vamos nos utilizar de um arcabouço teórico para analisar algumas das suas canções, relacionando-as com o espaço cultural que ele ocupa, de afrodescendente pertencente às camadas populares do Rio de Janeiro, boêmio e sambista.
I – Conceitos
O conjunto da obra de Nelson Cavaquinho apresenta uma espécie de característica essencial – um lirismo amargo que perpassa toda a sua composição musical, dando um tom melancólico à grande maioria de suas composições – perspectiva pela qual realizaremos, a seguir, a análise de suas canções.
O lírico é um termo em geral relacionado à literatura; é um gênero literário surgido na Grécia Antiga, que possui forte ligação com a música, pois é originário de hinos religiosos e da tradição popular. “A palavra ‘lírica’ deriva do grego lyrikós, que significa algo que concerne à lira, instrumento musical primitivo, com quatro cordas” (ROGEL, 1996. p. 73). A lírica, desde a Antiguidade, é diretamente associada à emoção e ao pensamento, e apesar das transformações impostas pelo tempo, essas também são características básicas do estilo lírico moderno. Entretanto, mais do que tentarmos definir exatamente o que é o lirismo, o mais importante é que saibamos identificar o seu clima, a sua sentimentalidade, o seu estado poético, que é o de “comunhão entre a natureza e o poeta” (ROGEL, 1996. p. 76). E não há maior comunhão que entre Nelson Cavaquinho e o seu samba.
Além do conceito de lirismo, deve-se ressaltar também que a problematização do tema proposto neste texto foi realizada a partir de três categorias de análise distintas: cultura popular, segundo Edward Palmer Thompson; espaço social, de acordo com Pierre Bourdieu – ambos autores do campo de análise marxista e; representação, de Roger Chartier, segundo o olhar da história cultural que regressa utilmente ao social, voltando-se para a determinação de posições e relações de grupos sociais. Essas categorias em conjunto permitiram a abordagem da temática do samba enquanto gênero musical – uma manifestação cultural – a partir de uma perspectiva social e da consequente associação do compositor em questão com sua obra e seu lugar na sociedade.
Iniciaremos o desenvolvimento do quadro teórico a partir da discussão de espaço social, por essa ser a chave que liga a obra de Nelson Cavaquinho a um determinado setor da sociedade, isto é, às camadas populares urbanas do Rio de Janeiro. O conceito de espaço social foi construído por Pierre Bourdieu, em seu livro intitulado Razões Práticas, de acordo com dois princípios de diferenciação: o capital econômico e o capital cultural (2005, p. 15). Para delimitar um espaço social, deve-se levar em conta as afinidades que os agentes sociais têm em relação a esses dois princípios, adotando como elemento relevante também a estrutura de seu capital, ou seja, o peso relativo que tanto o capital econômico quanto o cultural têm no volume global do capital.
A partir da distribuição dos agentes em um espaço social a partir do que se tem em comum em relação ao capital econômico e social, temos então que estes agentes terão também um habitus, isto é, um espaço de tomadas de posição onde se verifica a unidade de estilo que vincula as práticas e os bens de uma classe de agentes. Ou melhor, “o habitus são princípios geradores de práticas distintas e distintivas” (BOURDIEU, 2005, p. 22), que permitem a constituição de sistemas simbólicos, de signos distintivos.
Nesse contexto, Bourdieu relaciona o seu modelo com o conceito de classe social no sentido marxista do termo, afirmando que a construção do espaço social possibilita ao mesmo tempo a construção de classes teóricas homogêneas, no entanto, em termos práticos, essa proximidade no espaço social define apenas uma potencialidade de unidade objetiva, ou seja, uma classe provável (BOURDIEU, 2005, p. 25). Portanto, ele se utiliza do conceito de classes sociais de Thompson para defender que os espaços sociais não se tornarão classes mobilizadas e atuantes
no sentido da tradição marxista, a não ser por meio de um trabalho propriamente político de construção, de fabricação – no sentido que E. P. Thompson fala em The making of the English working class – cujo êxito pode ser favorecido, mas não determinado, pela pertinência à mesma classe sócio-logica. (BOURDIEU, 2005, p. 29)
Desse modo, utilizando mais uma vez as palavras de Bourdieu para atestar a ligação entre um agente social e sua realidade social: “o espaço social é a realidade primeira e última já que comanda até as representações que os agentes sociais podem ter dele” (BOURDIEU, 2005, p. 27).
Passemos, então, à categoria analítica de representação, segundo Roger Chartier (1990)[i]. Para este historiador, as representações do mundo social são construídas a partir dos interesses dos grupos que as forjam, sendo desprovidas de neutralidade, o que nos direciona para o sentido de representação coletiva. Deste modo, Chartier indica que as maneiras de percepção que cada grupo tem se si mesmo podem ser encaradas como instituições sociais, sendo que, as categorias mentais e as representações coletivas são “demarcações da própria organização social” (CHARTIER, 1990, p. 18).
Chartier procura identificar um sentido particular e determinado historicamente para o conceito de representação, construindo-o a partir de acepções antigas – utilizadas desde o Antigo Regime para o entendimento de como funciona a sociedade – lhe atribuindo uma noção de constitutivo de identidade (de classes, grupos ou meios). Sendo assim, atesta que essa noção determinada de representação é fundamental para a história cultural justamente porque articula três modalidades de relação com o mundo social:
em primeiro lugar, o trabalho de classificação e de delimitação que produz as configurações intelectuais múltiplas, através das quais a realidade é contraditoriamente construída pelos diferentes grupos; seguidamente, as práticas que visam fazer reconhecer uma identidade social, exibir uma maneira própria de estar no mundo, significar simbolicamente um estatuto e uma posição; por fim, as formas institucionalizadas e objetivadas graças as quais uns «representantes» (instâncias colectivas ou pessoas singulares) marcam de forma visível e perpetuada a existência do grupo, da classe ou da comunidade. (CHARTIER, 1990, p.19)
É importante ressaltar, neste sentido, que podemos articular a noção de representação coletiva de Chartier com a construção de um espaço social e a delimitação de um habitus em Bourdieu, à medida que ambos são distintivos, significativos, isto é, constituem uma certa unicidade simbólica e prática de determinado grupo social.
Por fim, abordaremos o conceito de cultura popular de Thompson com a finalidade de inserir as manifestações culturais de um determinado espaço social em uma categoria social mais ampla (no caso, a de cultura popular), relacionando-a com a própria sociedade em geral.
Thompson, em seu trabalho Costumes em comum (1998), discute o significado do termo cultura popular, afirmando que se trata de uma generalização que deve ser utilizada com cuidado por carregar em si uma dimensão consensual. A cultura não pode ser encarada como um sistema homogêneo de valores, signos e símbolos. Pelo contrário, este historiador encara a cultura como
um conjunto de diferentes recursos, em que há sempre uma troca entre o escrito e o oral, o dominante e o subordinado, a aldeia e a metrópole; é uma arena de elementos conflitivos, que somente sob uma pressão imperiosa – por exemplo, o nacionalismo, a consciência de classe ou a ortodoxia religiosa predominante – assume a forma de um “sistema”. E na verdade o próprio termo “cultura”, com sua invocação confortável de um consenso, pode distrair nossa atenção das contradições sociais existentes dentro do conjunto. (THOMPSON, 1998, p. 17)
Seguindo essa lógica, Thompson localiza que os universais da cultura popular não possuem significado quando não estão associados a contextos históricos específicos e, portanto, não são auto definíveis e nem livres de influências externas. Em vez disso, a cultura popular se define como antítese aos limites e controles que partem dos setores hegemônicos. Desse modo, este historiador nos proporciona um conceito de cultura popular, segundo suas próprias palavras, “mais concreto e utilizável, não mais situado no ambiente dos significados, atitudes, valores, mas localizado dentro de um equilíbrio particular de relações sociais” (THOMPSON. 1998, p. 17).
Sendo assim, o ponto de convergência destas três categorias de análise aqui abordadas é a característica de todas serem, em última instância, categorias de identidade, delineadas a partir de afinidades em comum e diferenças relacionais. Deste modo, o espaço social é construído pela semelhança/ diversidade de capital econômico e capital cultural; a representação coletiva é desenvolvida a partir da autopercepção em relação à sociedade; e a cultura popular é constituída a partir da oposição aos setores dominantes e aos limites por ele impostos.
II – Canções
As composições de Nelson Cavaquinho são bastante representativas da ligação entre as camadas populares urbanas do Rio de Janeiro e o samba devido à sua temática marcante, sempre retratando a tristeza, a desilusão, a angústia da morte e a efemeridade da vida, “alguns dos sentimentos mais agudos e presentes entre os perpetuamente marginalizados de bolso e de coração”, para citar o crítico de música e literatura J. Jota de Moraes (1982, p. 7). Isso porque, a temática de suas composições, sempre evocando os males da vida, a desilusão, a dor e a morte, retrata de maneira poética temas tão ásperos, mas que são presença marcante na vida dos seus semelhantes[ii]. É por isso que, “amargo lirismo”, termo retirado de um artigo não assinado da coleção História da Música Popular Brasileira – Grandes Compositores (…, 1982, p.5), define tão bem a sua obra, pois nos remete à inspiração poética, sentimental, e ao mesmo tempo, dolorosa, melancólica, de sua música.
Tire o seu sorriso do caminho
Que eu quero passar com a minha dor
Hoje pra você eu sou espinho
Espinho não machuca a flor
Eu só errei quando juntei minh’alma à sua
O sol não pode viver perto da lua
É no espelho que eu vejo a minha mágoa
A minha dor e os meus olhos rasos d’água
Eu na tua vida já fui uma flor
Hoje sou espinho em teu amor
A flor e o espinho – Nelson Cavaquinho/ Alcides Caminha/ Guilherme de Brito[iii]
Luz negra também é uma composição bastante emblemática do amargo lirismo da obra do referido compositor:
Sempre só
Eu vivo procurando alguém
Que sofra como eu também
E não consigo achar ninguém
Sempre só
E a vida vai seguindo assim
Não tenho quem tem dó de mim
Estou chegando ao fim
A luz negra de um destino cruel
Ilumina um teatro sem cor
Onde estou desempenhando o papel
De palhaço do amor
Luz negra – Nelson Cavaquinho/ Amâncio Cardoso[iv]
Perspectiva semelhante a esta é dada à vida e obra deste sambista pelo filósofo e psicólogo José Novaes, através de seu trabalho Nelson Cavaquinho: luto e melancolia na música popular brasileira (2003),no qual associa Nelson ao malandro (tipo que vive nas margens e brechas sociais, relacionando-se dialeticamente com a adaptação e a sociabilidade) justamente pelo modo particularmente subversivo que o sambista levava a vida: sem salário, sem trabalho fixo, sem parar de beber, não disposto a suportar algumas regras sociais.
A associação realizada por José Novaes de malandragem, luto e melancolia na vida e obra de Nelson Cavaquinho é semelhante à relação estabelecida neste trabalho entre o amargo lirismo de sua produção musical e o seu pertencimento aos grupos populares urbanos cariocas, principalmente aqueles que viviam ás margens do sistema social como desempregados, mendigos, prostitutas.
A aproximação de Nelson Cavaquinho à categoria de malandragem […] se dá por certas características de sua obra, e por sua vida mesmo. Essa relação é bem nítida, no caso de Nelson Cavaquinho, por dois ângulos: o homem, boêmio de todas as madrugadas, e a obra, de uma beleza e luminosidade que escancaram os desvãos mais depressivos e escondidos dos sentimentos humanos. A “filosofia desencantada” incorporada num homem “sem lei e sem felicidade”, a dissimulação “para aparentar felicidade” estão presentes, na obra de Nelson Cavaquinho, de modo insistente; a melancolia e a dor ali fazem sua morada.
Eis aí o simulador/dissimulador o filósofo-poeta, escondendo a sua infelicidade, e sugerindo esta atitude de vida como a mais correta, aquela inversão apontada por Antônio Cândido como própria da dialética da malandragem.
Não é só na obra de Nelson Cavaquinho que se mostra uma das faces do malandro; também sua vida foi pautada nesse diapasão A sua recusa sistemática ao “trabalho”, a sua inadaptação aos esquemas aprisionantes da sociedade que assenta suas bases na valoração do labor cotidiano e sistemático, e que dificulta extraordinariamente ao artista popular construir sua obra por não considerá-la como um trabalho digno, entre outras coisas por afastá-lo daquilo que é considerado realmente válido, essa fuga de Nelson Cavaquinho ás tentativas de captura nas redes que os poderes e as instituições oficiais estavam sempre lançando – lembre-se a valorização do trabalho na propaganda oficial, que se manifesta inclusive na música popular, no período getulista, de 1930 a 1945 –: enfim, a boêmia que sempre viveu Nelson Cavaquinho confirmam a sua malandragem. (NOVAES, 2003, p. 121)
E aqui seguem os versos do poeta dissimulador que denunciam a felicidade apenas aparente do eu lírico das composições de Nelson Cavaquinho, tal como enunciado por Novaes, e que é tema recorrente de suas composições:
Mais uma vez
Venho a vocês
Pra confessar que nunca fui feliz
Sempre sorrindo
Eu vou fingindo
Pois afinal não sei o mal que fiz
Sou qual ave que não sabe chorar
Todos gostam de ouvir meu cantar
Com meu violão sempre colado
Ao meu peito tão amargurado
A minha vida é um livro aberto
Que conta histórias de um deserto
Minha alegria
Que não tem fim
É a miragem que existe em mim
Miragem – Nelson Cavaquinho/ Guilherme de Brito[v]
E nessa mesma temática de simulação de felicidade, além de outras, temos ainda a canção Não é só você:
Se você soubesse
esconder a sua mágoa
os seus olhos não
estariam rasos d´agua
Quando eu
sinto vontade de chorar
finjo me alegre
pra ninguém me criticar
Não é só você
que não tem felicidade
eu também estou me acabando
e não volto à mocidade
sempre me afastei
de quem nasceu pra reclamar
não vem falar
não vem chorar perto de mim
escondo a minha dor
pois eu não sei o mal que fiz
eu gosto de fingir que estou feliz
Não é só você – Guilherme de Brito e Nelson Cavaquinho[vi]
Através da obra e vida de Nelson Cavaquinho, por ser ele um sambista e um indivíduo pertencente aos setores populares de baixa renda, além de ser descendente de negros, pode-se identificar a relação entre o samba e a cultura popular carioca. A obra musical de Nelson Cavaquinho, marcada por um “amargo lirismo”, representa simbolicamente o espaço social no qual ele está inserido. Isto é, suas composições caracterizadas pelas temáticas da dor, da desilusão, da morte e da efemeridade da vida são representações do espaço social a que ele pertence, no qual estão distribuídos os agentes sociais urbanos marginalizados da população carioca.
Do pó vieste e para o pó irás
Neste planeta tudo se desfaz
Não deves sorrir do mal-estar de alguém
Porque o teu castigo chegará também
Vives como um fidalgo
Guardes a tua riqueza
Que eu ficarei com a pobreza
Eu me considero rico em ser pobre
Sejas como eu que sempre soube ser nobre
Tens um coração de pedra, de ninguém tens dó
Tu também és um que vieste do pó
Vives como um fidalgo
Guardes a tua riqueza
Que eu ficarei com a pobreza
Revertério – Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito[vii]
O pertencimento de Nelson Cavaquinho a este grupo se dá a partir da sua própria biografia: ele se sustentou, em grande parte da sua vida, de pequenos trabalhos e venda de parcerias autorais, o que o aproxima desse espaço social em termos de capital econômico; e a baixa escolaridade e sua rotina de personagem permanente da boêmia carioca os aproximam na afinidade também em termos de capital cultural, não sendo a toa que a Mangueira é fonte de inspiração e tema de suas composições.
O o o o
Foi Mangueira que chegou,
O o o o
Foi Mangueira que chegou.
Mangueira é celeiro
De bambas como eu
Portela também teve
O Paulo, que morreu
Mas o sambista
Vive eternamente
No coração da gente
Os versos de Mangueira são modestos
Mas ha sempre força de expressão
Nossos barracos são castelos
Em nossa imaginação
O o o o
Foi Mangueira que chegou
O o o o
Foi Mangueira que chegou
Mangueira – Nelson Cavaquinho/ Geraldo Queiroz[viii]
E temos ainda,
Quando eu piso em folhas secas
Caídas de uma mangueira
Penso na minha escola
E nos poetas da minha estação primeira
Não sei quantas vezes
Subi o morro cantando
Sempre o sol me queimando
E assim vou me acabando
Quando o tempo avisar
Que eu não posso mais cantar
Sei que vou sentir saudade
Ao lado do meu violão
Da minha mocidade
Folhas secas – Nelson Cavaquinho/ Guilherme de Brito[ix]
Os temas amargos que perpassam toda a sua obra, tais como morte e dor, interagem de forma dialética com os agentes sociais desse espaço e com ele próprio, num misto de conformidade e atitude, desesperança e esperança.
O sol há de brilhar mais uma vez
A luz há de chegar aos corações
Do mal será queimada a semente
O amor será eterno novamente
É o juízo final, a história do bem e do mal
Quero ter olhos pra ver, a maldade desaparecer
Juízo final – Élcio Soares/ Nelson Cavaquinho[x]
Além disso, por possuir um baixo capital cultural, já que, sua vida escolar não chegou até o término do primário, sendo sua maior fonte de cultura a música, nem mesmo tendo contato com a literatura (como era o caso de Cartola), a grande fonte de inspiração para a composição lírica de Nelson Cavaquinho partia de sua própria realidade e experiência social, no que concerne ao pertencimento às camadas populares do Rio de Janeiro, principalmente os que viviam ás margens. A letra de Rugas evidencia essa questão, tendo como temática o tipo de vida que ele e as pessoas que o cercavam levavam.
Se eu for pensar muito na vida
Morro cedo amor.
Meu peito é forte,
Nele tenho acumulado tanta dor
As rugas fizeram residência no meu rosto
Não choro pra ninguém
Me ver sofrer de desgosto
Eu que sempre soube
Esconder a minha mágoa
Nunca ninguém me viu
Com os olhos rasos d’água
Finjo-me alegre
Pro meu pranto ninguém ver
Feliz aquele que sabe sofrer
Rugas – Nelson Cavaquinho/ Ary Monteiro/ Augusto Garcez[xi]
No entanto, não é só a vida que inspira Nelson Cavaquinho. A morte também é tema recorrente, talvez até mesmo o mais presente em sua produção musical, sendo uma das características de maior originalidade desse sambista. Transformar a angústia da morte, uma questão existencial da vida – e esse é o ponto em que sua obra atinge a universalidade – em samba é de fato sua genialidade:
Sei que amanhã
Quando eu morrer
Os meus amigos vão dizer
Que eu tinha um bom coração
Alguns até hão de chorar
E querer me homenagear
Fazendo de ouro um violão
Mas depois que o tempo passar
Sei que ninguém vai se lembrar
Que eu fui embora
Por isso é que eu penso assim
Se alguém quiser fazer por mim
Que faça agora
Me dê as flores em vida
O carinho, a mão amiga,
Para aliviar meus ais
Depois que eu me chamar saudade
Não preciso de vaidade
Quero preces e nada mais
Quando eu me chamar saudade – Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito[xii]
A morte e o luto eminentes aparecem como que para sublimar a dureza da vida. A morte é motivo de angustia, mas também é a esperança da redenção e da beneficência divina.
Quando eu passo
Perto das flores
Quase elas dizem assim:
Vai que amanhã enfeitaremos o seu fim
A nossa vida é tão curta
Estamos nesse mundo de passagem
Ó meu grande Deus, nosso criador
A minha vida pertence ao Senhor
Eu e as flores – Nelson Cavaquinho[xiii]
O samba ser o gênero musical eleito de Nelson Cavaquinho reforça ainda mais a idéia de que sua obra é uma legítima representante simbólica de um espaço social delimitado a partir das camadas populares urbanas do Rio de Janeiro, principalmente as mais desprovidas, já que este gênero teve a sua origem ligada ao desenvolvimento da cultura popular carioca. E, mesmo após ser ter sido promovido a símbolo de brasilidade, o samba nunca se desvinculou da cultura popular no seu sentido dinâmico e relacional. O próprio Nelson se insere na categoria de poeta do povo, como nos demonstra o belo samba Rei vadio, no qual ressalta as características de boêmio e sambista melancólico:
Consolei
Meu peito tão marcado
Quanto eu lembrei
Das lutas do passado
Tropecei
Nos cantos dessa vida
Cada esquina traz
A dor, uma ferida
Noites eu varei
Mas cada amor me fez um rei
Um rei vadio,
Um poeta tão sem lei
Não vivi em vão
Fiz tanto amigo, muito irmão
Nem mesmo a mágoa
Pode calar meu violão
Rei vadio – Nelson Cavaquinho[xiv]
III – Fontes e referências bibliográficas
BOTEZELLI, J. C. Pelão e PEREIRA, Arley (coord). A música brasileira deste século por seus autores e intérpretes. Volume 3 (livro). São Paulo: SESC Serviço Social do Comércio, 2000. CD nr. JBC-0709-030.São Paulo: SESC São Paulo/JCB Produções Artísticas, 2000.
BOURDIEU, P. Razões práticas: sobre a teoria da ação. Campinas: Papirus Editora, 2005.
CHARTIER, R. A História cultural: entre práticas e representações. Lisboa: Difel, 1990.
COSTA. F. M. Nelson Cavaquinho: enxugue os olhos e me dê um abraço. In: Coleção perfis do Rio. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2000.
Nelson Cavaquinho. Coleção História da Música Popular Brasileira – grandes compositores (fascículo e LP). São Paulo: Editora Abril S.A, 1971.
LETRAS. Música começa com letras, c2003. Página inicial> Samba> Nelson Cavaquinho. Disponível em <http://letras.terra.com.br/nelson-cavaquinho/>. Acesso em: 12-17 de fev. 2009.
NO poeta da morte, o fascínio pela magia da vida. In: História da Música Popular Brasileira – grandes compositores. Fascículo de Nelson Cavaquinho. São Paulo: Editora Abril S.A., 1982. p. 5.
Nelson Cavaquinho. Depoimento ao Museu da Imagem e do Som. Rio de Janeiro, 1967 (áudio).
Nelson Cavaquinho. “Depoimento do poeta”. São Paulo: JCA Studios, 2002.
Nelson Cavaquinho, série Raízes do Samba. Rio de Janeiro: EMI, 1999.
Nome sagrado. Beth Carvalho canta Nelson Cavaquinho. São Paulo, Jam Music, 2001.
NOVAES, J. Nélson Cavaquinho: luto e melancolia na Música Popular Brasileira. Rio de Janeiro: Intertexto/ Oficina do autor, 2003.
Quatro grandes do samba: Nelson Cavaquinho, Candeia, Guilherme de Brito e Elton Medeiros. RCA/BMG Brasil, 2001.
ROGEL, S. (org). Manual de Teoria Literária. Petrópolis: Vozes, 1996.
THOMPSON, E. P. A Formação da classe operária inglesa. Vol. I – A Árvore da Liberdade Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997.
THOMPSON, E. P. Costumes em comum: estudos sobre a cultura popular tradicional. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
VAGALUME. Música é tudo, c2002. Página inicial> Samba> N> Nelson Cavaquinho. Disponível em <http://vagalume.uol.com.br/nelson-cavaquinho/> Acesso em: 12-17 de fev. 2009.
Notas:
[i]. Encerramos a noção de espaço social utilizando o termo representação, o que não é uma afinidade conceitual acidental entre Bourdieu e Chartier, visto que, este explicita que suas escolhas metodológicas para o estudo das lutas de representações, para imposição de uma concepção de mundo social, são apoiadas em grande medida no trabalho de Bourdieu, principalmente La distinction (CHARTIER, 1990. p. 17).
[ii]. Neste trabalho trataremos somente das letras das composições de Nelson Cavaquinho, no entanto, as melodias de suas músicas soam tais como suas letras: melancólicas, verdadeiros lamentos
[iii]. Disponível em: <http://letras.terra.com.br/nelson-cavaquinho/307086/>. Acesso em: 12 de fev. 2009
[iv]. Disponível em: <http://letras.terra.com.br/nelson-cavaquinho/307087/>. Acesso em: 12 de fev. 2009.
[v]. Disponível em: <http://vagalume.uol.com.br/nelson-cavaquinho/miragem.html>. Acesso em 12 de fev. 2009.
[vi]. Disponível em: < http://letras.terra.com.br/nelson-cavaquinho/81876/>. Acesso em 17 de fev. 2009.
[vii]. Disponível em: http://letras.terra.com.br/nelson-cavaquinho/374991/>. Acesso em 17 de fev. 2009.
[viii]. Disponível: <http://letras.terra.com.br/nelson-cavaquinho/1312761/>. Acesso em 12 de fev. 2009.
[ix]. Disponível: <http://letras.terra.com.br/nelson-cavaquinho/47646/>. Acesso em 12 de fev. 2009.
[x]. Disponível em: http://letras.terra.com.br/nelson-cavaquinho/47647/. Acesso em 12 de fev. 2009.
[xi]. Disponível em: <http://vagalume.uol.com.br/nelson-cavaquinho/rugas.html>. Acesso em 12 de fev. 2009.
[xii]. Disponível em: <http://letras.terra.com.br/nelson-cavaquinho/198132/>. Acesso em 17 de fev. 2009.
[xiii]. Disponível em: < http://letras.terra.com.br/nelson-cavaquinho/1245809/>. Acesso em 17 de fev. 2009.
[xiv]. Música transcrita da audição da faixa nº 13 do CD Série Raízes do Samba – Nelson Cavaquinho.
