Gustavo Cravo de Azevedo (UFRJ)


Esse texto para o blog, bem como a sistematização de dados que resultou na tabela acima, foram fruto da minha apresentação sobre o Seminário dos Técnicos Administrativos em Educação da UFRJ (SINTAE) e a Revista Práticas em Gestão Pública Universitária (PGPU) do dia 02 de setembro de 2022 como parte do Acolhimento aos novos servidores técnicos administrativos tomando posse, uma atividade da Pró-Reitoria de Pessoal. Essas duas iniciativas – SINTAE e PGPU – são profundamente ligadas às mudanças da categoria. A técnica administrativa Ivaneide Grizente apresentou a Revista PGPU e eu apresentei o SINTAE. Minha intenção na produção e exposição dessa tabela aos novos servidores foi tentar mostrar um pouco para qual categoria eles passarão a fazer parte.
Agradeço ao Francisco de Assis (o Chiquinho) pelos dados de 2005 e 2010, que eu não tinha. E agradeço a Agnaldo Fernandes, ao Chiquinho e à Rita Anjos pela leitura crítica do texto antes da publicação.
Nós técnicos administrativos em educação debatemos muito esse tema. Em locais específicos, mas mais ainda no nosso cotidiano, no nosso dia a dia. “Fulana” quer fazer o mestrado antes de aposentar. “Ciclano” esse ano quer finalmente concluir sua graduação. E por aí vai. Quem não tem essas conversas em seu local de trabalho? Esses números da tabela acima necessitam ser interpretados. A riqueza está justamente nessa interpretação. Esse curto texto que escrevo para o blog é mais para deixar online essa tabela. Com isso, as pessoas – individualmente ou em seus grupos – conseguirão debater esses dados. Apresento abaixo algumas interpretações minhas. Algumas próprias, mas a grande maioria construída coletivamente, em conversas.
Há dois motivos para a escolha desse recorte temporal, indo de 2005 a 2020. O primeiro é que 2005 é um ano muito importante para os técnicos administrativos das instituições federais de ensino superior de todo o país. É o ano em que começa a valer nossa atual carreira, o Plano de Carreira dos Cargos Técnico-Administrativos em Educação (PPCTAE), fruto de muita luta e de organização da categoria. É um ano de mudança para quem já estava na universidade e trouxe bons ventos de mudanças para quem viria a entrar. E o segundo motivo é que não tenho dados anteriores a 2005.
Divido essa coluna em duas partes. Na primeira parte, vou fazer comentários por aglutinação: (1) até o ensino médio; (2) graduação e especialização; (3) mestrado e (4) doutorado. Um parágrafo para cada. Na segunda parte, vou fazer comentários sobre os dados de maneira geral e nas possibilidades institucionais a partir deles.
Conforme os dados nos mostram, é bastante visível que cada vez menos temos servidores com apenas o ensino médio. Alguns motivos explicam isso: (1) já não há mais entrada por concurso para os cargos A, B, e em boa parte C da tabela do PPCTAE; (2) boa parte desses cargos foi extinto e hoje muitos que ocupam essas funções – como segurança, limpeza, portaria, etc. – são pessoas terceirizadas; (3) são pessoas em geral com muito tempo de casa e que ou já poderiam se aposentar ou então que possuem esse objetivo; (4) são a parte dos trabalhadores técnicos mais simples. Não é fácil convencer essas pessoas a voltar a estudar. Nesse ponto aqui da tabela e da carreira, não há respostas fáceis. E, enquanto isso, a universidade (veja só) convive com um conjunto de trabalhadores que não possuem o ensino médio. Importante aqui dizer que a ausência de concursos para esses cargos vem desde os anos 1990, com Fernando Collor e depois com Fernando Henrique Cardoso, quando não havia concursos para a universidade no geral, não somente para esses cargos. E depois, a ausência de concursos para esses cargos se explica por uma reestruturação do mundo do trabalho (público e privado) e que na universidade, e no serviço público em geral, resultou em terceirização e extinção de cargos, cenário que não foi revertido e que permanece até hoje. Para permitir uma melhor visualização desses dados, fiz a conta e também calculei o percentual para cada ano. Em 2005, havia 3.691 pessoas com até o ensino médio e isso representou 58,7% dos trabalhadores. Em 2010, havia 4.030 pessoas representando 53,7%. Em 2015, 3.817, representando 42,3% do conjunto da categoria. Em 2020, 2526 pessoas representando 28,7% da categoria. Uma pena que em 2020 não conseguimos a diferenciação entre (1) Até 4ªa série do E.F.; (2) E.F. completo e (3) E.M. completo. O que é um problema porque acompanhando os dados ao longo dos anos, é difícil de imaginar que pessoas que ainda não tinham o ensino fundamental completo em 2015 passaram a ter em 2020. Nenhuma ação em especial aconteceu na universidade para justificar isso. Esse texto pega o período de 2005 a 2020. (Como bem lembrou a Rita Anjos durante a revisão crítica do texto, já houve no passado menos recente – antes do período que esse texto analisa – ações principalmente voltadas para que mais servidores conquistassem o ensino médio.) Dito isso e pensando para o período 2005-2020, fica a pergunta: eles estão estudando ou esse número está sendo reduzido porque essas pessoas estão se aposentando? Alguma Instituição Federal de Ensino Superior (IFES) conseguiu resolver os problemas do número alto de servidores sem nem o ensino médio? Outra questão: quem diz que isso é um problema? Porque isso só passa a ser um problema a ser resolvido quando as posições de poder reconhecem o tema como um problema. Senão, é só mais um dado, e não um problema a resolver.
Em 2020, comemoramos os 100 anos da UFRJ. E, é possível pensar em 100 anos de trabalho administrativo na UFRJ, por consequência. De onde viemos e para onde vamos? Os dados acima mostram que em algum momento entre 2010 e 2015 conseguimos chegar à metade da categoria com, pelo menos, o nível superior. Levamos 90 anos para que metade da categoria tivesse, no mínimo, o nível superior. Foi um longo caminho até aqui! Se hoje a fronteira mais imediata para a maioria da categoria é o acesso ao mestrado, nem sempre foi assim. Temos há cerca de dez anos a maior parte da categoria com o diploma de graduação. É algo muito recente. O Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (REUNI) ajuda a explicar isso e o PPCTAE também. Sabemos que boa parte dos concursos do final dos anos 2000 e da década dos anos 2010 foi para nível médio e superior, classes D e E. Na classe E, os servidores já entram com o diploma de graduação e na classe D, muita gente também já entra com um grau de estudo acima do esperado. Eu coloquei graduação e especialização juntas nessa análise porque a entrada na especialização é um processo mais acessível e menos complicado do que o mestrado. E é importante lembrar que estamos em uma categoria de trabalhadores técnicos que, não necessariamente tem familiaridade com a linguagem acadêmica. A especialização, a meu ver, serve para muitos como um aquecimento para se preparar para a seleção de mestrado em algum momento. Para outros, pelo menos um aumento da remuneração mais imediato. Tudo isso que falei nesse parágrafo me leva a acreditar que não haverá uma reversão no fato de que pelo menos metade da categoria tem a graduação. Isso permanecerá. Logo que eu ponho os olhos nos dados, penso, a cada ano “Onde está a maioria dos técnicos?”. Estão aqui, na graduação/especialização.
Fruto das lutas e das greves, conseguimos importantes mudanças no PPCTAE. Em 2012, as classes A,B,C,D puderam alcançar a tabela por completo e receber por todos os seus títulos. A fonte dos dados dessa tabela é o SIAPE. Em outras palavras, quando a pessoa consegue o título maior e pode receber por ele, ela dá entrada ao incentivo à qualificação. E dessa forma, a universidade passa a saber oficialmente que ela tem um título maior e computa isso. Sabendo disso, é possível apontar que os dados de 2015 dão uma dimensão mais próxima da realidade do que os dados de 2005 e 2010. Antes de 2015, dados como mestrado e doutorado estavam subdimensionados. Se observarmos, de 2010 para 2015, o número de mestres aumenta em quase 3X e o de doutores em quase 6X. Eu não acho que tenha sido somente um grande número de pessoas estudando. Eram pessoas que já tinham os títulos em mãos e que tiveram que esperar as mudanças de 2012 para dar entrada, o que inflou os dados. Entre 2015 e 2020, esses números também subiram bastante, o que é bom. E, se observamos na tabela, temos em 2020 quase 4.300 técnicos com graduação ou especialização. São a maioria da categoria e é um público potencial a tentar um mestrado. É necessário afirmar que há forte demanda reprimida da categoria pelo mestrado e um dos motivos, é preciso registrar, é que estamos há seis anos sem nenhum reajuste. O estudo nesse cenário em que estamos é a única saída para um aumento de remuneração dentro da universidade. Há também a possibilidade de aumentar remuneração por meio de Funções Gratificadas (FGs) e Cargos de Direção (CDs), mas essas são saídas individuais e, para essa coluna, as desconsidero.
Em relação ao doutorado, avanços, mas lentos. De 2005 a 2010, quase o mesmo número. Lembrando que só em 2012 houve uma alteração no PPCTAE na qual todas as classes – antes era restrito para classe E – puderam acessar o incentivo à qualificação pelo doutorado. De 2010 a 2015 um salto e de 2015 a 2020, outro salto. O tempo esperado para cumprir o mestrado é de dois anos e o de doutorado é quatro anos. Isso influencia que o aumento de servidores com mestrado aumente mais rapidamente mesmo. Em 2020, havia 16,2% dos servidores com mestrado e apenas 6,5% com o doutorado. Pouca gente, mas percentualmente significativo. Em 2015, 2,7% dos técnicos tinham doutorado. Em 2010, 0,9% e em 2005, 0,7%. Em 2025, é bastante provável que cheguemos a 20% de mestres e a 10% de doutores. Talvez a gente consiga esses percentuais até antes. Mas, não sei se o número de doutores continuará subindo porque a verdade é que a gente sabe muito pouco das expectativas profissionais dessas pessoas.
Acima escrevi sobre os dados da tabela. Abaixo, vou fazer comentários gerais.
Começo dizendo que sem o PPCTAE, sem nosso plano de carreira, não teríamos essa tabela e não teríamos o desenho da categoria que temos hoje, com suas aspirações de estudo e de ‘continuar estudando’. Sob certo ângulo, somos uma categoria de trabalhadores-estudantes.
Eu gostaria muito de poder fazer comparações desses dados da UFRJ com: (1) as maiores e mais antigas universidades federais do país – com características similares às nossas; (2) com os recém-criados IFs, cujo quadro tem titulação maior e muito provavelmente é mais jovem de idade por causa da grande quantidade de concursos mais recentes em comparação às instituições mais antigas; (3) com a média nacional. Como está a UFRJ em relação à média nacional nesse quesito da formação dos técnicos? Alguém tem esses dados? O Ministério da Educação (MEC)? A Federação de Sindicatos de Trabalhadores Técnico-Administrativos em Educação das Instituições de Ensino Superior Públicas (FASUBRA)? O Fórum Nacional de Pró-Reitores de Gestão de Pessoas das IFES (FORGEPE)?
Aliás, nesse meio do caminho desse texto, vale perguntar: a UFRJ tem clareza do que fazer com os técnicos que estão estudando e aumentando sua titulação? Estamos em um cenário de super-qualificação dos técnicos, com titulação maior do que pede o edital no momento de entrada. E é importante colocar uma pergunta na mesa: isso é uma oportunidade ou um problema? Uma crítica conhecida na universidade é que o PPCTAE oficialmente é um plano de carreira. Mas muitos podem interpretá-lo como algo muito mais simples, como um plano de salários. Me explico. A ideia de carreira é mais complexa do que você apresentar um título e receber por ele. Carreira dá a ideia de que você está constantemente se aprimorando para melhor servir a sociedade – afinal, somos funcionários públicos – e também dá a ideia de que a instituição dá conta de acomodar essa mudança na velocidade em que elas acontecem. Sabemos que isso é difícil em uma instituição gigantesca e muito atropelada por cortes de verbas e todos os problemas que isso acarreta. Agnaldo Fernandes, em sua leitura crítica a esse texto, comentou nesse parágrafo que estamos no meio do caminho. Se ainda não temos uma carreira completa, no sentido dado nesse parágrafo, já avançamos alguns passos e o PPCTAE não é somente um plano de salários. Gostei da ideia de meio do caminho e aderi a esse posicionamento.
Falei rapidamente do REUNI mais em cima e vou voltar ao tema nesse parágrafo. O REUNI, do ponto de vista de políticas de Pessoal, significou um aumento no número de estudantes de graduação em relação ao número de docentes e técnicos. Há toda uma disputa de narrativa sobre esse tema que eu não vou entrar aqui. Importa que há mais estudantes e logo, mais trabalho, para técnicos e docentes. E, por outro lado, uma oportunidade histórica de democratização por parte da universidade e da sociedade brasileira com parcela de sua população. Sabemos que o aprendizado dos estudantes não se dá somente dentro de sala de aula. Essa seria uma ideia de pedagogia fraca sobre a experiência universitária. Os estudantes aprendem circulando pelo campus, na interação com outros estudantes, na interação com técnicos, e etc. Meu ponto aqui é que a maior quantidade de estudantes por docente abre, do ponto de vista institucional, uma oportunidade interessante para que os técnicos administrativos participem mais da etapa de formação desses estudantes. E não estou aqui falando de futuro, estou falando de presente. Isso já acontece. E pode se intensificar. Tanto dentro das unidades acadêmicas, através de projetos de ensino, pesquisa e extensão. Como do ponto de vista administrativo. A administração central na gestão Roberto Leher teve uma boa oportunidade de convívio entre técnicos das Pró-Reitorias (e outros) e estudantes por meio do Programa de Bolsas de Políticas de Desenvolvimento Institucional (PBPDI). Esse programa, dito de maneira rápida, financiava estudantes de graduação por meio de uma bolsa para que estes atuassem junto a técnicos administrativos da administração central da universidade. Os estudantes aprendiam na prática a dinâmica e os desafios da administração central da universidade e, em troca, oxigenavam os setores com novas ideias. Uma troca que eu avalio como muito positiva. Com o aumento do estudo dos técnicos, e dada a necessidade de formarmos bem nossos estudantes de graduação e de maneira ampla, temos aqui uma grande potencialidade que merece ser mais bem explorada. No caso de unidades administrativas, a titulação maior ajuda, mas a experiência prática acumulada ao longo de anos já justifica a capacidade de orientação de estudantes por parte de técnicos. E, reforçando, essa já foi uma experiência que tivemos e que já foi avaliada como positiva na Pró-Reitoria de Pessoal da UFRJ (PR4). Não tenho informação das outras Pró-Reitorias, mas acredito que também tenha sido boa.
O movimento estudantil, há anos, carregou consigo a frase “Não queremos que a universidade vire um escolão”. À luz desse texto aqui, vou comentar nesse parágrafo o que eu interpreto. O movimento estudantil estava preocupado com a qualidade da formação dos estudantes de graduação em uma expansão desordenada. E é uma preocupação muito importante mesmo, reforço. A palavra ‘escolão’ aqui entra em um sentido de denúncia de um ensino massificado, mais preocupado em produzir números altos de conclusão de curso para expor em relatórios do que preocupado em uma formação atenta e de qualidade. Vou colocar em exemplos. Há um limite no número de estudantes a ser orientado em nível de graduação por parte de cada docente. Vamos supor aqui alguma docente que oriente quatro alunos de graduação e outros quatro de pós-graduação (na UFRJ, é muito comum que docentes atuem na graduação e também na pós-graduação). Pois bem, agora imaginem que essa docente passe a orientar o dobro de alunos de graduação e o dobro de alunos de pós-graduação. É possível? Se é possível, é plausível imaginar que essa profissional fique mais estressada além de que a qualidade da atenção que ela dará a cada orientando, seja de graduação ou de pós-graduação, diminua? Uma expansão desordenada tensionaria esse limite em nível individual para cada docente, e, além disso, corre-se o risco de alguns estudantes conseguirem se formar com uma qualidade e uma experiência (muito) reduzida em relação ao que seria ideal. Esse efeito se potencializaria ainda mais entre os mais pobres. Essa, na minha interpretação, foi a denúncia feita pelo movimento estudantil. E pegando novamente a frase de denúncia, universidade em um sentido de formação de qualidade e ‘escolão’ em um sentido de formação apressada, descuidada, massificada, com foco principal em produzir números para relatórios. Essa situação de aumento do número de estudantes por docente permanece e, infelizmente, mesmo com a reconhecida qualidade da UFRJ, alguns estudantes são formados de maneira mais apressada. Dado esse cenário, no que os técnicos podem ajudar?
A categoria está em movimento. Está sempre em movimento. Não é novidade que parte de nossos técnicos, sobretudo os mais recentes e em cargos de nível médio estão aqui sonhando em passar para outros concursos que paguem mais. Do outro lado da ponta, faltam dados: o que esperam da UFRJ nossos técnicos doutores? É difícil até apontar alguma coisa. Mas vou tentar. Esperam coordenar pesquisas? Esperam conseguir integrar pesquisas coordenadas por docentes? Esperam coordenar projetos de extensão? Esperam conseguir integrar projetos de extensão coordenados por docentes? Esperam conseguir orientar discentes em termos de iniciação científica, iniciação à docência, em atividades de extensão, em atividades artísticas e culturais? Não esperam mais nada e estão satisfeitos? Planejam deixar a instituição? O que esperam da UFRJ nossos técnicos com doutorado? Temos um número inédito de técnicos doutores – o que pode representar uma oportunidade institucional – porém, como dito, sabemos pouco das expectativas profissionais dessas pessoas e há um cenário macro muito ruim para carreiras ligadas à ciência, tecnologia e à docência no ensino superior tanto em carreira pública quanto privada. Parte dessas pessoas, dado o momento do país, está ‘presa’ temporariamente na instituição? Elas vão seguir como técnicas na instituição e acumular com outra oportunidade profissional pública ou privada? Seria interessante para a instituição, para planejar o futuro, conhecer esse perfil. Todas essas perguntas são cercadas por achismos, mas faltam dados concretos. Adoraria que alguém um dia fizesse essa pesquisa e me respondesse. Aliás, segue de sugestão para projeto de pesquisa de especialização/mestrado/doutorado para alguém que esteja no momento sem ideias do que pesquisar. Seria interessante uma grande pesquisa que descobrisse melhor também as aspirações dos novos técnicos. O legal de conseguir dados para perguntas que a gente não sabe é que podemos nos surpreender. E se descobrirmos que os novos técnicos desejam se integrar mais nas atividades da universidade?
Quantos técnicos fazendo pesquisa? Fazendo extensão? A gente não sabe. A avaliação por mérito dos técnicos, realizada a cada 18 meses, na qual 100% dos trabalhadores respondem, e com dados sistematizados pela Pró-Reitoria de Pessoal, poderia ser uma maneira de averiguar isso. Mas eu entendo que dado o gigantismo da universidade, ainda que pequenas mudanças nesse sentido são difíceis e levam um tempo. Outra maneira de descobrir esses dados seriam pessoas fazerem suas pesquisas de especialização/mestrado/doutorado nesse tema. Há muitos técnicos querendo continuar estudando que poderiam se debruçar, se quiserem, sobre essas questões em aberto aqui nesse texto. Institucionalmente falando, a PR4 e/ou o SINTUFRJ também poderiam encomendar essa pesquisa, mas a resposta por parte dos servidores, é claro, seria voluntária. Não seria obrigatória como no momento da avaliação por mérito pela PR4. De todo modo, algum dado é sempre melhor que nenhum. Precisamos sair do achismo se queremos fazer planejamento.
João Eduardo Fonseca, hoje técnico administrativo aposentado da UFRJ, no livro Novos Atores na Cena Universitária, nos alerta que fomos uma categoria historicamente subalterna. Isso começa a mudar com a organização dos trabalhadores. Esse debate da subalternidade é outro bom debate que pode sair de desdobramento do avanço no estudo e na titulação dos técnicos, como mostra a tabela. O avanço da titulação dos técnicos altera ou ajuda a alterar a situação de subalternidade?
Outro desdobramento interessante, nessa mesma linha de raciocínio é: os técnicos ocupam mais espaços na universidade a partir do aumento da titulação? No Conselho Universitário, nos conselhos de centro, no CEG (graduação), CEPG (pós-graduação), CEU (extensão), etc. Essa relação entre aumento de titulação e ocupação de espaços é válida? Ou é algo que não se aplica?
Para enriquecer essa análise, é importante trazer aqui que o debate atividade-fim e atividade-meio atravessa toda a organização do trabalho na universidade e também atravessa o fazer dos técnicos. Afinal, cabe lembrar, técnicos são muitos e somos muito diversos. Esse é um dos desdobramentos desse debate todo: no que a mudança no grau de escolaridade dos técnicos altera a adesão deles a atividades-fim e atividades-meio? Outro desdobramento necessário desse debate é se o aumento de escolaridade dos técnicos altera a relação destes com as demais categorias da universidade: discentes e docentes. E eu adicionaria aqui também uma terceira categoria: a dos terceirizados.
É importante também termos dados do que as outras três categorias da universidade: docentes, discentes, terceirizados, acham de nós, de nosso aumento de escolaridade. Perguntar a essas categorias quais expectativas possuem sobre nós. Se perceberam alguma mudança nos últimos anos. Conversar entre nós, como estamos fazendo nesse texto e nesse blog, é fundamental. Mas é preciso aumentar essa roda de conversa. Até porque, os docentes estão super-representados em todas as instâncias de decisão da universidade. Dividimos com os discentes somente 30% do peso dos votos nos espaços. Os outros 70%, a maioria, está com os docentes. E precisamos deles para cumprir os objetivos da universidade frente à sociedade brasileira e também para qualquer objetivo mais imediato. Conto aqui algumas experiências que tive pessoalmente com discentes e docentes e que também me ajudaram a pensar. Primeiro com discentes e no parágrafo seguinte com docentes.
Os discentes com quem tive contato e que orientei através do Programa de Bolsas em Projetos de Desenvolvimento Institucional (PBPDI) gostaram da experiência e se surpreenderam com a amplitude da atividade dos técnicos e também com nossa formação. Disseram que aprenderam bastante no período de bolsistas. É comum ouvirmos discentes dizerem que se surpreendem aos descobrirem que o trabalho dos técnicos vai além de secretariar. E faço ainda a observação de que discentes muitas vezes fazem uma leitura de secretariado muito frágil. Porque é uma atividade que pode envolver produção de dados, elaboração de relatórios, que pode ser muito complexa.
Tenho 12 anos de técnico administrativo na UFRJ e já ouvi muita coisa no contato com docentes. Para esse parágrafo, selecionei uma única frase, curta, mas muito simbólica e dita por uma docente: “Os técnicos não querem mais atender o telefone”. Quando escrevo nesse texto aqui de forma propositiva que os técnicos podem fazer mais, estou dizendo que nossa categoria pode se integrar mais nas atividades-fim da universidade, tanto do ponto de vista de nosso tripé de ensino-pesquisa-extensão quanto na capacidade de administrar a universidade. Se parcela dos docentes, sejamos justos, é inclusiva e está aberta e atenta às mudanças na qual passa a categoria, outros parecem ter dificuldade em separar a figura do técnico do serviçal, mesmo com o aumento do grau de estudo e titulação. Agora, é importante também ter em mente aqui que se há espaço para que técnicos ajudem mais nas atividades-fim, as atividades-meio não vão sumir. Acredito que seja essa a preocupação de parte dos docentes. E é preciso encarar isso de frente. Nós técnicos não deixaremos de atender o telefone e de fazer as tarefas administrativas, se é essa a preocupação. Eu disse acima que a maior parte da categoria deseja fazer o mestrado e parcela importante não sabe o que fazer para ingressar. Para mim, há uma oportunidade aí até de fortalecer os laços entre docentes e técnicos. É comum que técnicos de laboratório tenham oportunidade de estudo ali mesmo, no espaço de trabalho. O docente sabe que ganhará um parceiro de trabalho mais qualificado e investe. Acredito que essa mesma lógica deva se reproduzir sobretudo nas secretarias das unidades acadêmicas. Técnicos lotados em secretarias podem vir a se tornar excelentes parceiros na produção de dados. Dito de maneira gentil, há bastante espaço para melhorarmos em uma cultura institucional de produção (e sistematização) de dados. Os técnicos podem ajudar.
O livro do João Eduardo pode ser lido como um alerta para as novas gerações de técnicos de que nós fazemos parte de uma categoria que esteve historicamente subalternizada. Aprender com o passado para não repetir no futuro. O alerta que o livro passa é que precisamos estar atentos a esse fato, incluindo aí que essa subalternização pode ganhar nova roupagem. A insistência histórica no argumento da subalternidade, como bem nos avisou o João Eduardo, adaptada para frases como “meu técnico não quer atender o telefone”, faz esse debate todo aqui do texto paralisar. Quando seu foco único sobre relações de trabalho na universidade é dizer que ‘seu’ técnico não quer atender o telefone, quais boas perguntas você deixa de colocar na mesa? Sugiro algumas: como o técnico que trabalha comigo pode ajudar mais? Como ele pode se integrar mais nas atividades do setor? Quem é essa pessoa que está aqui na minha frente e como conciliar as aspirações dela com a do setor? Como a tabela mostra, a realidade não é estática. Há movimento nesses 15 anos analisados e há uma tendência nesse movimento. É melhor compreendermos as mudanças e a acompanharmos do que irmos a reboque delas.
Em determinados momentos das últimas 10 edições do Seminário de Integração dos Técnicos Administrativos (SINTAE UFRJ), me peguei pensando em como ampliar numericamente a participação dos técnicos, ampliando principalmente em direção à participação de colegas das classes A, B e C. As classes D e E já estão bem representadas. Em uma primeira avaliação minha, pouco apurada, acreditava que uma maior divulgação de prazos e datas resolveria isso. Com os anos, fui entender que o problema era e é mais complexo. E convoco novamente as reflexões do João Eduardo para cá. Enviar um texto sobre seu trabalho para o SINTAE ou um artigo completo para a Revista PGPU envolve mais do que a pessoa ficar sabendo dos prazos de submissão do texto. É preciso que a pessoa se entenda como autora daquela ação na universidade para que ela se aproprie daquilo, pense em cima, até que chegue ao ponto de que crie autonomia e participe de um seminário ou publique um artigo. Que participe da discussão pública. Autonomia intelectual é algo quase diretamente oposto a subalternidade. E essa reflexão só me veio com muitos anos. Algum colega técnico administrativo que se entenda como subalterno, que se entenda como um cumpridor de ordem, que tenha tido sua proatividade e sua autonomia intelectual negadas ou desincentivadas ao longo dos anos não vai mandar trabalho para o SINTAE e também não vai escrever um artigo para a Revista PGPU, não interessa o quanto prorroguemos os prazos.
Esses dados que temos da tabela são indiferenciados. Se conseguimos descobrir algumas coisas, muita coisa a gente não sabe. Vou me explicar. A partir desses dados, não sei se são homens ou mulheres nesses cargos e nessas titulações. Não sei de que classe são: A,B,C,D ou E. Não sei em que unidades da UFRJ estão. Não sei se as titulações mais altas estão entre técnicos mais antigos na instituição ou entre mais novos. Não sei se os títulos mais altos estão equitativamente distribuídos entre brancos e negros. Não sei se essa titulação representou aumentos diretos ou indiretos (Ex: no mestrado o incentivo direto dá direito a 52% e o indireto a 35% sobre o vencimento-base). Esses dados da tabela não me dizem se nossos técnicos estão conseguindo seus diplomas, seja lá de que nível for, em instituições públicas ou privadas. Também não sei se há um número desproporcional de técnicos fazendo cursos em Educação e/ou em Administração Pública ou se isso não se aplica. Sei que na UFRJ há número grande de técnicos que fizeram e fazem seu mestrado e doutorado em instituições internacionais, principalmente no Paraguai, mas também em nível considerável na Argentina, mas não sei se esse é um quadro do passado ou se ainda se aplica. Não sei se esses títulos foram obtidos em unidades da UFRJ mais abertas a técnicos que estudem ou se foram obtidas com muito suor em unidade muito difíceis de transitar para técnicos que desejam continuar estudando. Para quem é de fora da UFRJ e esteja lendo esse texto, talvez estranhe isso da unidade em que a pessoa trabalha fazer diferença. Há instituições mais centralizadas e que conseguem fazer valer regras universais. Não é o caso da UFRJ, de formação histórica muito fragmentada e que até hoje não conseguiu romper ou reverter (apenas de maneira muito tímida) essa tendência. A unidade na qual você trabalha, ou em nível ainda menor e mais pessoal, o chefe direto que você tenha, fazem total diferença em seus planos de estudo.
A tabela também indica que de 2015 para 2020 tivemos uma diminuição no número total de técnicos na instituição, o que é preocupante. O último ano em que tivemos um saldo positivo entre entrada e saída de técnicos administrativos na UFRJ foi 2018. De 2019 para cá, a cada ano que passa, a UFRJ perde técnicos. Por várias razões: (1) ausência de concursos públicos regulares, (2) muita gente se aposentou antes da reforma da previdência, com medo, (3) perdemos muitos técnicos para a covid-19 e infelizmente para outras enfermidades também, (4) o salário defasado e congelado há 6 anos faz com que colegas peçam demissão e vão trabalhar em outros órgãos públicos e também na iniciativa privada.
Esse foi um texto produzido por um técnico administrativo da UFRJ olhando para a instituição na qual trabalho. Tenho bons motivos para acreditar que as dúvidas levantadas aqui a partir de um olhar sobre a instituição muito provavelmente são dúvidas compartilhadas por colegas de outras instituição. Se a UFRJ possivelmente não tenha clareza das mudanças da categoria ou se não consegue acompanhar o acelerado ritmo dessas mudanças, é muito provável que outras universidades e institutos federais bem como o próprio MEC também não entendam e não consigam.
Para esse próximo ponto que vou tocar, vou começar falando de escola e depois vou falar de universidade. É comum ouvirmos pessoas que visitam escolas centenárias dizendo que a escola não mudou nada: “Olha lá, quadro negro, giz, a disposição da sala com professora na frente em pé e alunos sentados. Tudo igual”. Não é verdade. É apenas um olhar apressado. Se a disposição do espaço físico e das pessoas pode realmente parecer a mesma há décadas, o país mudou. E muito. Hoje somos um país urbano e não mais rural. Temos uma inclusão de crianças e jovens na escola muito superior ao que já tivemos e que deixa para trás o enorme analfabetismo que já tivemos. Melhoramos. Então, se o espaço físico parece o mesmo, as relações sociais ali dentro mudaram. Esse é meu ponto aqui. Agora parto para comparar com a universidade. Alguém desavisado e observando apenas a disposição do espaço físico e das pessoas pode achar que nada mudou na universidade. Principalmente nas unidades acadêmicas ou administrativas que ainda usam o balcão de atendimento, onde os técnicos ficam atrás. Mas mudou sim. As relações sociais dentro da universidade mudaram, de maneira talvez ainda tímida, mas mudaram. Hoje os técnicos administrativos ocupam mais espaços e cumprem mais funções na universidade.
O recrutamento de docentes, técnicos e discentes mudou muito nesses 100 anos de atividade administrativa. Para os discentes, há maior recrutamento das classes populares. Para técnicos, o recrutamento também se tornou mais diverso, atraindo quadros mais escolarizados. Para os docentes, cabe investigar com mais calma se o recrutamento se democratizou um pouco e qual a origem dos docentes mais recentes. No meio disso tudo e com impacto para as três categorias, o REUNI. E, para os técnicos, o PPCTAE. Então, acredito mesmo que as relações sociais dentro da universidade mudaram. Se não mudou o espaço físico, mudaram as relações sociais.
Essa tabela, cheia de dados, diz muito sobre em qual direção se movimenta a categoria, mas não nos diz nada – e nem é função dela – sobre organização do trabalho na UFRJ e sobre o clima de trabalho. Em um exercício de abstração, para conseguir mostrar um ponto, convido os leitores a pensar em uma sala de trabalho da UFRJ. Uma sala concreta, real, uma seção de trabalho de alguma unidade acadêmica ou administrativa. Pois bem, nessa seção há quatro servidores. Um mais antigo e com o ensino médio completo (servidor A). Uma com a especialização recém-terminada, buscando publicar e ainda sem saber muito bem como fará para entrar no mestrado (servidora B). Outro que está fazendo o mestrado dele (servidor C). E a mais recente que já entrou com o doutorado em mãos (servidora D). A, B, C e D podem ter uma relação pessoal muito boa, se seguir nas redes sociais, almoçarem, comemorarem e confraternizarem juntos. Tudo isso é bom para um ambiente de trabalho sadio. Lembro do Roberto Gambine, enquanto Pró-Reitor de Pessoal, falando em uma mesa: “o ideal é que todos sejam felizes nessa universidade”. Nunca mais esqueci dessa fala dele. Simples, direta, faz pensar. Porém, e se em outra sala da UFRJ, com esse mesmo perfil, houver um clima de tensão, e talvez até um certo ressentimento em ver os outros avançando e você um pouco sem saber o que fazer para avançar. E se o servidor A desse exemplo se sentir deslocado? Pior, e se A e B se sentirem deslocados? Precisamos pensar nessas coisas motivados por um bom clima de trabalho na universidade. Assunto espinhoso que eu trato nesse parágrafo. Eu sei. Mas precisa ser dito. Precisamos planejar uma universidade que em seu cotidiano produza a integração, o bem-estar, que permita que as pessoas sonhem. E evitar ao máximo um cotidiano que produza o ressentimento. Uma saída seria fortalecer possibilidades de estudo e trazer a ideia de movimento para esse debate. Se há pessoas paradas e um pouco sem saber para onde ir, trazer para esse debate a ideia de movimento, de livre-fluir. É preciso, é claro, pensar em como fazer isso. E dadas as características de parte da categoria, todo apoio em relação a processos seletivos, de ingresso principalmente ao mestrado, são necessários e muito bem-vindos. A UFRJ é enorme e não conheço tudo que ela oferece nesse sentido. A unidade acadêmica NIDES possui um preparatório para mestrado interessante e o SINTUFRJ também. Essas iniciativas devem permanecer e se multiplicar.
Não falei aqui sobre a Comissão Interna de Supervisão (CIS) da Carreira. Não temos CIS na UFRJ. Tivemos em algum momento, mas eu tampouco sei da história do porquê tínhamos e porque agora não temos mais. Espero que alguém um dia conte essa história aos servidores mais novos. E não vejo saída para isso. Porque é uma pauta, aparentemente, abandonada pelos servidores antigos. E os servidores novos não têm como defender algo que eles sequer conhecem. Ter uma CIS ajudaria de alguma forma a acompanhar a carreira dos técnicos na UFRJ?
Não falei também de Mestrado Profissional para técnicos. A universidade em seus diversos programas acadêmicos e profissionais recebem técnicos administrativos. Que bom. Que continue. Isso é uma coisa. Outra coisa é uma formação profissional específica para técnicos. Os modelos mais comuns têm sido nas áreas de Administração Pública e também na Educação. A UFRJ perde a chance de formar seus técnicos, uma pena. A UFRJ assistiu muitas mudanças na última década e o florescimento de programas de mestrado profissional em diversas instituições públicas e o surgimento de redes organizando esses programas. São as redes PROFIAP, nas universidades federais, e PROFEPT, nos institutos federais. “Papamos mosca”, como dizemos aqui no Rio. Quem sabe a gente não corre atrás disso em um futuro próximo? O que está faltando?
Meu texto também não comenta sobre técnicos com pós-doutorado. Não temos esse registro no SIAPE porque não se recebe por esse valor. Não faz muita diferença para a análise desse texto ter esses dados. Ao ter comentado de técnicos doutores, acredito que já dê conta dos desafios institucionais de acolher essas pessoas.
Para fechar o texto, precisamos entender a direção na qual nossa categoria está se movimentando. A tabela aponta claramente que o número de servidores com até o ensino médio tende a cair, principalmente por motivos de aposentadoria. Os servidores com a graduação e a especialização continuarão sendo a maioria por ainda um bom tempo. Chuto aqui que em 2025, dados dos próximos 5 anos, essa realidade ainda existirá. O número de servidores mestres continuará aumentando, e o de doutores também, porém, mais lentamente. O ano de 2025 marcará os 20 anos do PPCTAE, de nossa carreira. Onde queremos estar? É interessante que a universidade adquira uma cultura de produzir dados, o que ajudará no futuro. Tudo isso que nos mostram os números tende a acontecer e pode ser intensificado ou mais bem direcionado com planejamento, estratégia e inteligência por parte da administração central da universidade.
*Gustavo Cravo de Azevedo é técnico em assuntos educacionais da Pró-reitoria de Pessoal da UFRJ

Um comentário sobre “15 anos em dados: Grau de Escolaridade e Titulação dos Técnicos Administrativos em Educação da UFRJ em quatro momentos – 2005, 2010, 2015, 2020”