Tire o seu sorriso do caminho, que eu quero passar com a minha dor: o samba de Nelson Cavaquinho

Começamos aqui uma série de 3 textos sobre a vida e a obra de Nelson Cavaquinho, a partir da adaptação da monografia O lirismo amargo das composições de Nelson Cavaquinho (1911-1986) como representação de um espaço social, para a conclusão do curso de História, na UFRJ, no ano de 2009.

Nelson Cavaquinho é um sambista carioca cuja obra é ao mesmo tempo simples e rica. E essa riqueza se expressa tanto em termos musicais, quanto líricos, sendo diretamente associada à sua trajetória de vida de mestiço, pobre e boêmio, ligado ao Morro da Mangueira. Tudo isso faz com que ele seja um dos compositores mais representativos do universo do samba que, mais que um gênero musical, é uma manifestação sociocultural, de origem popular e afro-brasileira, assim como Nelson.

Nelson Cavaquinho é a fina flor do samba!

I – Nelson Cavaquinho: vida e obra

Nelson Cavaquinho nasceu Nelson Antônio da Silva, em 29 de outubro de 1911i, na Rua Mariz e Barros, na Praça da Bandeira, zona norte do Rio de Janeiro. Braz Antônio da Silva, um afrodescendente brasileiro, e Maria Paula da Silva, uma índia paraguaia, juntamente com seus quatro filhos trocavam constantemente de endereço. Por conta das péssimas condições habitacionais e das constantes altas do preço do aluguel, a família morou em diversos bairros cariocas tal como a Lapa, passando pelo subúrbio de Ricardo de Albuquerque e, por fim, chegando ao então bairro operário da Gávea, na zona sul da cidade.

Parte de sua infância foi passada no bairro central da Lapa, nas ruas Silva Manoel e Joaquim Silva, momento no qual o menino Nelson entrou em contato com algo que vai lhe acompanhar pelo resto da vida: a religiosidade. Sua mãe Maria Paula trabalhava como lavadeira no Convento das Irmãs Carmelitas, em Santa Teresa, e Nelson Cavaquinho começou a ter aulas de catecismo. Essa foi uma referência decisiva em sua vida, já que, Deus foi tema constante de suas composições e de suas conversas, mesmo que a manifestação de sua religiosidade se desse em termos bastante particulares (ele não frequentava a igreja, mas era uma pessoa com fé, valores e manifestações cristãs, como a caridadeii). Outro fato marcante na vida de Nelson Cavaquinho foi a desastrosa epidemia de gripe espanhola na cidade do Rio de Janeiro, no ano de 1918, sendo este o seu primeiro contato com a morte, temática também permanente em toda a sua obra.

A interação de Nelson Cavaquinho com a música se deu desde cedo. Seu pai pertencia à banda da polícia militar e foi quem o ajudou a improvisar o seu primeiro cavaquinho, com uma caixa de charutos. Seu tio era violinista e eram frequentes os saraus familiares, principalmente aos sábados, onde se tocava Callado, Chiquinha Gonzaga, Patápio Silva e também provavelmente os sons “que se espalhavam pelos pobres da cidade” (COSTA, 2000, p. 27). Após a mudança da família para uma vila operária na Gávea, quando Nelson já estava com dezoito anos, ele iria se relacionar mais intensamente com o choro, e mais tarde, a partir da experiência no morro da Mangueira, com o samba. Tratando-se do chorinho, Flávio Moreira da Costa nos esclarece:

[…] é possível que o jovem Nelson tenha ouvido esta ou aquela música popular, ou mesmo todas, cantadas nos bailes, nas ruas e nas rodas de botequim. O que ele com certeza escutava eram os choros dos bares simples da Gávea. Era a época de Heitor dos Prazeres, então tocador de cavaquinho, do violão de Mazinho, seu primeiro professor, e de cavaquinhos afiadíssimos e agilíssimos do Eugênio, ali da Gávea. Era chegada a hora de não só “arranhar” um instrumento, mas aprender a tocá-lo, para ser admirado pelas moças do lugar. Acabou escolhendo aquele que se transformou em seu próprio sobrenome. Mas aprender como? Escutando e espiando os veteranos, segurando um cavaquinho emprestado apoiando no colo, perguntando a um, conversando com outro. Mas Nelson era cobra criada: logo, logo já “dava quedas”iii nos velhos músicos populares. (COSTA, 2000, pp. 34-35)

Nelson da Silva ganhou seu primeiro cavaquinho de verdade de um jardineiro português que morava na Gávea e se chamava Ventura, que de tanto ver Nelson utilizando o instrumento de outros resolveu lhe dar um de presente. Dessa época, podemos destacar as composições dos choros Gargalhada, Queda e Nair, esta última gravada por Altamiro Carrilho, virtuoso flautista, compositor e disseminador do choro brasileiro, inclusive, internacionalmenteiv.

Tendo cursado somente o primeiro ano primário (segundo ele mesmo relatou ao autor de sua biografia), Nelson Cavaquinho teve que abandonar os estudos para trabalhar e ajudar na renda da família, primeiro numa fábrica de tecidos, depois como auxiliar de eletricista, não permanecendo por muito tempo em nenhum dos dois empregos. Por fim, seu pai lhe arrumou uma vaga no mesmo batalhão de polícia militar onde havia trabalhado, na rua Senador Dantas, e Nelson tornou-se cavalariço da PM. É nesse período em que se iniciou a sua bela história com o morro da Mangueira.

Mas antes disso, vamos falar do casamento de Nelson Cavaquinho. Aos vinte e um anos ele casou-se com a sua primeira mulher, que se chamava Alice. O casamento saiu pela pressão feita por ambas as famílias, após Nelson ter “passado dos limites” impostos pela época com a então namorada. A relação durou sete anos e foi bastante conturbada, ao passo que a esposa não suportava a vida boêmia que ele levava, desde bem moço, havendo situações em que passava dias e noites fora de casa, pelos botequins. Muitos cavaquinhos foram quebrados por conta disso. Um pouco após a separação, Alice morreu e os três filhos do casal foram criados pelos avós.

Foi após o nascimento do terceiro filho de Nelson Cavaquinho com Alice que Seu Braz da Silva, pai de Nelson, lhe arrumou um emprego na instituição na qual sempre trabalhara e se aposentara, a Polícia Militar:

Nelson foi designado para o setor de cavalaria. A única intimidade que ele tinha com cavalos eram os filmes de Tom Mix e Buck Jones que vira na infância. Cavalgar era preciso, que o policiamento na época era na base da montaria. […] Com temor ou sem temor, com segurança ou sem segurança, a verdade é que tanto Nelson se adaptou ao cavalo quanto o cavalo se adaptou a ele. (COSTA, 2000, p. 44)

A princípio, nosso policial foi destacado para fazer a ronda na Lapa, que iniciava sua vida de bairro de boêmia, diferente do período em que ele lá vivera durante a infância. Não existe nenhum registro de prisão executada por Nelson Cavaquinho, mas se sabe que de vez em quando ele conseguia alguns ganhos extras irregulares, como por exemplo, por fazer vista grossa para as prostitutas do local. Em 1933, já promovido a cabo, Nelson foi escalado para compor a patrulha do morro da Mangueira, uma favela nova que, em 1915, iniciava as suas rodas de samba. Foi nesse morro que o famoso bloco dos Arengueiros, muito conhecido pelos seus valentes, deu lugar, em 1928, à Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira, uma das maiores até os dias de hoje.

Lá ia Nelson com seu cavalo camarada em direção ao Buraco Quente ou ao Pendura-a-saia com o objetivo aparente de cuidar da ordem, mas na realidade – sem que ele mesmo soubesse, iniciaria uma longa convivência com o morro e sua gente: ia enfim fazer seu doutorado em matéria de samba. Não era qualquer um que subia os morros, mesmo à época. Havia como hoje (guardadas as proporções bem mais assustadoras hoje), uma mistura de preconceito (o morro era de crioulos e pobres) e medo (dos arengueiros e valentes). […] Subindo a Mangueira a trabalho, cabo Nelson percebeu logo que estava pertinho do céu: além do samba de primeira, qualquer coisa lá em cima era motivo para beber: festa, casamento, nascimento, morte ou o próprio samba rolando. (COSTA, 2000, pp. 46-49)

Foi, então, na década de 1930, a partir do contato com os músicos do Morro da Mangueira, a exemplo de Cartola e Carlos Cachaça, que Nelson Cavaquinho se debruçou no gênero e acabou se tornando um dos grandes sambistas brasileiros, sendo seu propagador pelos cantos do Rio de Janeiro devido à sua peregrinação boêmia pela noite carioca. Seu primeiro samba, Entre a cruz e a espada, foi composto nesse período e seus vários outros de louvação à Mangueira, tais como Folhas Secas, surgiram somente num momento posterior. A exaltação à mangueira presente em várias de suas músicas, inclusive, causa uma confusão sobre a pessoa de Nelson da Silva. Muitos acham que ele era morador do morro, mas na realidade, ele só morou pouco mais de um ano por lá, dividindo um quarto com Carlos Cachaça. Outros pensam que ele era um grande carnavalesco, o que também não era verdade, apesar de Nelson torcer pela escola de samba.

Após oito anos como policial militar, já viúvo, Nelson Cavaquinho voltou a ser um civil depois de pedir baixa devido aos inúmeros incidentes causados pela sua típica vida de sambista e boêmio, sendo o estopim o regresso de seu cavalo sozinho ao batalhão. Para não arrumar complicações para seu pai, que o indicou, e seu irmão, que também era PM, Nelson retirou-se da instituição.

Foram oito anos de PM, oito anos como guardião da lei, oito anos sem prender sequer um ladrão de galinha, muito menos os valentes e malandros que, se não eram seus amigos, gostavam muito dele e de seu violão. […] Como o nosso Nelson Cavaquinho aguentou esse tempo todo usando uma farda da repressão, já sabemos: fazendo exatamente o contrário, o que não deveria fazer, isto é, levar a vida cantando e bebendo. […] Nelson Cavaquinho cantou como ninguém em seus sambas as cores da Verde-e-Rosa. […] Mangueira, no entanto, jamais viria a ser para ele – como Itabira, para Drummond – um dolorido retrato na parede. Continuaria como fonte de inspiração, lugar de um bando de amigos onde sempre seria bem recebido. E, sobretudo, para quem mal cursara o primeiro ano primário, fora onde Nelson Cavaquinho conseguira o seu diploma de PhD em samba. (COSTA, 2000, pp. 52-54)

As décadas de 1930 a 1980 foram o período de composição de sambas de Nelson Cavaquinho, que a partir de então nunca se distanciou deste gênero musical, mesmo nos momentos em que ele foi mais marginalizado, como no caso da década de 1950, com o surgimento da bossa nova. Entretanto, Nelson Cavaquinho sempre foi um sambista que viveu às margens do mundo da produção musical, não tendo relações diretas com a indústria fonográfica até os anos de 1970, quando gravou o seu primeiro disco. Essa sua trajetória pode ser explicada pelo tipo de vida que sempre levou, os lugares que frequentou e o público que elegeu como seu, mas sua face de compositor e sua entrada tardia na indústria cultural são temas do nosso próximo texto. Até lá!

III – Fontes e referências bibliográficas (da série de 3 textos)

BOTEZELLI, J. C. Pelão e PEREIRA, Arley (coord). A música brasileira deste século por seus autores e intérpretes. Volume 3 (livro). São Paulo: SESC Serviço Social do Comércio, 2000. CD nr. JBC-0709-030.São Paulo: SESC São Paulo/JCB Produções Artísticas, 2000.

BOURDIEU, P. Razões práticas: sobre a teoria da ação. Campinas: Papirus Editora, 2005.

CHARTIER, R. A História cultural: entre práticas e representações. Lisboa: Difel, 1990.

COSTA. F. M. Nelson Cavaquinho: enxugue os olhos e me dê um abraço. In: Coleção perfis do Rio. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2000.

Nelson Cavaquinho. Coleção História da Música Popular Brasileira – grandes compositores (fascículo e LP). São Paulo: Editora Abril S.A, 1971.

LETRAS. Música começa com letras, c2003. Página inicial> Samba> Nelson Cavaquinho. Disponível em <http://letras.terra.com.br/nelson-cavaquinho/>. Acesso em: 12-17 de fev. 2009.

NO poeta da morte, o fascínio pela magia da vida. In: História da Música Popular Brasileira – grandes compositores. Fascículo de Nelson Cavaquinho. São Paulo: Editora Abril S.A., 1982. p. 5.

Nelson Cavaquinho. Depoimento ao Museu da Imagem e do Som. Rio de Janeiro, 1967 (áudio).

Nelson Cavaquinho.Depoimento do poeta”. São Paulo: JCA Studios, 2002.

Nelson Cavaquinho, série Raízes do Samba. Rio de Janeiro: EMI, 1999.

Nome sagrado. Beth Carvalho canta Nelson Cavaquinho. São Paulo, Jam Music, 2001.

NOVAES, J. Nélson Cavaquinho: luto e melancolia na Música Popular Brasileira. Rio de Janeiro: Intertexto/ Oficina do autor, 2003.

Quatro grandes do samba: Nelson Cavaquinho, Candeia, Guilherme de Brito e Elton Medeiros. RCA/BMG Brasil, 2001.

ROGEL, S. (org). Manual de Teoria Literária. Petrópolis: Vozes, 1996.

THOMPSON, E. P. A Formação da classe operária inglesa. Vol. I – A Árvore da Liberdade Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997.

THOMPSON, E. P. Costumes em comum: estudos sobre a cultura popular tradicional. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

VAGALUME. Música é tudo, c2002. Página inicial> Samba> N> Nelson Cavaquinho. Disponível em <http://vagalume.uol.com.br/nelson-cavaquinho/&gt; Acesso em: 12-17 de fev. 2009.

Notas:

i Muitos lançam dúvida sobre o ano de nascimento de Nelson Cavaquinho, entretanto, o próprio afirmou que nascera no ano de 1911, durante a gravação do programa MPB especial, explicando que a dúvida sobre a sua data de nascimento era porque seu pai alterara a sua idade para que ele pudesse ingressar na Polícia Militar.

ii Nelson Cavaquinho, inclusive, compôs uma canção que se chama Caridade, o qual cita como predileta dentre as músicas de sua autoria durante seu depoimento ao Museu da Imagem e do Som em 1967, no Rio de Janeiro.

iii “A queda de um chorão se dava quando o outro instrumentista melodiava seu solo de tal e ardilosa maneira que o ‘rival’ se atrapalhava e perdia o fio da meada musical, procurando uma nova posição no instrumento o que, caso não o conseguisse, obrigava-o a saltar no tom de continuidade da música”. (COSTA, 2000, pp. 34-35)

iv Altamiro Aquino Carrilho (Santo Antônio de Pádua, 21 de dezembro de 1924) é um músico, compositor e flautista brasileiro, uma lenda viva do choro. Este flautista virtuoso já gravou mais de cem discos, compôs cerca de duzentas canções e já se apresentou em mais de quarenta países difundindo este gênero brasileiro. Disponível em:< http://pt.wikipedia.org/wiki/Altamiro_Carrilho&gt;. Acesso em: 09 de fevereiro. 2009.

 

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