Por que fazer um Seminário técnico-científico dos Técnicos Administrativos em sua Instituição Federal de Ensino Superior (IFES)?

Gustavo Cravo de Azevedo (UFRJ)

Escrevo na última semana de novembro de 2020, motivado pela realização da 8ª edição do Seminário de Integração dos Técnicos Administrativos em Educação da UFRJ (SINTAE). A Pró-Reitoria de Pessoal (PR4) da UFRJ, com muitos braços, mentes e corações, através desses 8 anos, conseguiu realizar oito edições seguidas do seminário técnico científico. A edição desse ano é uma edição especial por ser realizada em comemoração aos 100 anos da UFRJ e por ser a primeira edição totalmente virtual. Aproveito para parabenizar a todos os responsáveis por essa 8ª edição! A UFRJ seguirá, espero, realizando uma edição anual de seu Seminário e seguirá com seu edital aberto a receber trabalhos de técnicos-administrativos de universidades públicas de todo o país. Estamos de braços abertos para nossos colegas e trabalhadores de nossas instituições co-irmãs. Sigamos juntas e juntos! Esse texto, além de uma comemoração, é uma provocação às colegas e aos colegas que me leem para que desenvolvam seminários locais, em suas universidades e institutos federais onde trabalham.

Vamos à pergunta-título: por que fazer um Seminário técnico-científico dos Técnicos-Administrativos em sua Instituição Federal de Ensino Superior (IFES)? Os itens abaixo não estão em ordem de importância e essa pergunta fica mais complexa se trocarmos as palavras da pergunta “por que fazer” por “como fazer”. O país é muito grande e suas instituições universitárias públicas muito diversas. É comum a gente falar melhor sobre cenários que conhece mais de perto. Por isso vou falar da UFRJ, mas, por diversas conversas que tive com colegas técnicos Brasil adentro, acredito que as reflexões abaixo tenham pontos comuns. Então fico contente se essas pistas ajudarem na reflexão:

(1) Quando algum trabalhador técnico-administrativo apresenta por 15 minutos seu trabalho na universidade, essa pode ser uma oportunidade única e anual dessa pessoa ter um feedback (retorno) sobre seu trabalho.

(2) Quando algum trabalhador técnico-administrativo apresenta seu trabalho, ele sente muito orgulho de seu fundamental trabalho na instituição. Só esse ponto já justificaria um seminário.

(3) Proporcionar que o servidor técnico-administrativo apresente seu trabalho contribui para que ele reconheça o tamanho da sua importância no setor/divisão e na instituição. Não podemos tirar como óbvio que os trabalhadores técnicos possuem a real noção da importância do seu trabalho. Muitas vezes é preciso um feedback (retorno) externo que produza essa reflexão. Em um termo mais informal usado aqui no Rio, para que “a ficha caia”.

(4) Os técnicos-administrativos produzem muito e em diversas direções, de trabalhos mais próximos às atividades meio aos trabalhos mais próximos às atividades fins. Nós técnicos sabemos disso. Mas nem sempre as demais categorias sabem disso. Mostrar a produção é uma das saídas de comprovar essa impressão que nós técnicos temos. De comprovar e de nos surpreender. Por diversas vezes pensei e ouvi de colegas “Estou muito impressionado com a qualidade de trabalho da categoria dos técnicos. Dá um orgulho.”

(5) Nós técnicos-administrativos somos parte da universidade e devemos à sociedade demonstrar nosso compromisso com ela por meio de nosso (bom) trabalho, produção, ações e projetos.

(6) As Pró-Reitorias de Pessoal e Reitorias país adentro podem, e devem, acompanhar as mudanças que acontecem dentro da categoria dos técnicos-administrativos. Uma das maneiras é ouvir seus trabalhadores técnicos-administrativos.

(7) Os técnicos-administrativos, sem exagero, mantêm a universidade em pé e funcionando. Na UFRJ costumamos dizer que a pessoa mais importante é a que abre a porta, funções hoje em muito ocupadas pelos terceirizados. Realizar um seminário semanal a cada ano é uma perspectiva realista de conseguir reunir muitos técnicos em um único lugar. Ainda assim, na UFRJ, há problemas com algumas chefias liberarem técnicos para apresentar trabalhos ou participar do evento.

(8) A exposição de trabalhos na UFRJ, e acredito que por boa parte do país também, esclarece que a categoria dos técnicos-administrativos já vem trabalhando em parceria com as outras três categorias da universidade: docentes, discentes e terceirizados. Já estamos integrados e podemos nos integrar ainda mais. A direção é essa.

(9) Muitas vezes você trabalha em uma sala e não tem uma noção exata do que seu colega faz. Já parou para pensar nisso? O momento do Seminário pode ajudar as pessoas a se conhecerem e a conhecer melhor o trabalho umas das outras. Inclusive, vale dizer, parcerias surgem assim.

(10) Ao reconhecer o protagonismo dos técnicos em suas atividades na universidade, convidá-los a participar mais. O reconhecimento aproxima. A falta de reconhecimento afasta, e muitas vezes, adoece.

(11) A UFRJ faz 100 anos. Em pelo menos 80 deles, acho que o número 90 é mais real, menos da metade dos técnicos tinha nível superior. Esse cenário mudou muito recentemente. Hoje mais metade dos trabalhadores técnicos possuem pelo menos a graduação. Números que temos que comemorar. Quando o servidor técnico se capacita e estuda mais, qualifica seu atendimento à população. Ganham todos.

(12) Na UFRJ, o número de servidores com mestrado ou doutorado completo, bem como de mestrandos e doutorandos aumenta visivelmente. Teremos em relativo curto tempo a maior parte da categoria dos técnicos com escolaridade (bem) maior do que a pedido em edital de concurso. Parte da opinião nacional aí presente vai dizer que isso é gasto. Não compartilho dessa opinião. Acredito que temos uma janela de oportunidades na mão com a maior qualificação que precisamos aproveitar. E as universidades, como sabemos por trabalhar nelas, muitas vezes possuem mudanças lentas. Pergunto: qual o tamanho da potência que os trabalhadores técnicos trazem para a universidade ao se capacitarem mais?

(13) Em quantos momentos do calendário anual da universidade os trabalhadores técnicos se sentem valorizados? Vale a pena realizar uma semana de evento para mostrar o que os técnicos estão produzindo e permitir a eles debaterem com seus colegas.

(14) Onde está a produção dos técnicos? Como mensurá-la? Essa pergunta vem me acompanhando ao longo dos meus últimos anos na universidade. Dada a diversidade da categoria e do trabalho técnico-administrativo, é uma pergunta muito difícil de responder. Pessoalmente, ainda não tenho essa resposta. Institucionalmente, os desafios são muitos. E é importante não desanimar. O formato de um Seminário técnico-científico pode conseguir pegar no máximo parte dessa produção. Dada a diversidade da categoria, parte se sentirá provocada a fazer uma apresentação nesse formato mais acadêmico e a outra parte não. E é normal que seja assim. É papel da alta gestão pensar em como mensurar o trabalho de todos. E é um desafio.

(15) Os técnicos-administrativos produzem nos mais diversos seminários e periódicos das mais diversas áreas. Um servidor técnico formado em Biologia circulará em eventos de sua área e uma servidora técnica bibliotecária idem. Ótimo. Que bom que nossos servidores se preocupem em estar atualizados. Para além disso, é preciso que as IFES pensem em um espaço, que pode ser um seminário no qual essas pessoas, que estão dispersas, se encontrem e conversem tendo como chão comum a universidade. A instituição ganha.

(16) Optar por um seminário técnico-científico dialoga diretamente com duas das três categorias presentes na universidade: discentes e docentes. Essas duas últimas categorias estão muito acostumadas e confortáveis com esse formato. Ao optarmos por ele também, nos aproximamos e demonstramos que nós também conseguimos esse diálogo e nesse formato. Lembro que na UFRJ, muito recentemente, uma categoria de trabalhadores (técnicos) não possuía ainda o ensino superior em sua maioria enquanto a categoria de trabalhadores (docentes) possuía o doutorado em sua maioria. Nós técnicos teremos que ter um pouco de paciência ainda para que as categorias discente e docente notem essa mudança que já está acontecendo. Apostar num seminário técnico-administrativo, acredito, ajuda.

(17) Um dos maiores desafios de qualquer organização, pública ou privada, é motivar os trabalhadores. E é difícil. Pessoas que trabalham na área de Pessoal, caso leiam esse texto, possivelmente vão concordar. Ouvir os trabalhadores e suas ideias pode permitir que eles se motivem.

(18) Se possível, é necessário que haja um documento acessível, pode ser um PDF online, com o resultado do Seminário. Na UFRJ, produzimos um Caderno de Resumos por edição do SINTAE composto pelos resumos dos trabalhos apresentados. Ele compõe a memória da edição anual do Seminário, de maneira mais particular, e a memória do trabalho técnico-administrativo na universidade e da própria universidade, de maneira mais ampla.

(19) Avaliar a categoria dos técnicos por sua produção incluindo sua participação em projetos de ensino, pesquisa e extensão se faz necessário e é sinal de que a IFES está antenada no que está acontecendo. Avaliar os servidores técnicos somente por pontualidade e frequência, na minha visão, é sinal de atraso, de falta de projeto, e de falta de compreensão de uma universidade que se expandiu, e se expandiu democratizando seu acesso (com destaque aos cursos de graduação).

(20) Essa mesma universidade poderia, e deveria, aproveitar melhor essa força de trabalho bem qualificada nos desafios que se põem à frente. Podemos colaborar mais na formação discente por meio de coordenação de projetos (de ensino, pesquisa, extensão bem como administrativos e de gestão) que eles participem e tenham (às vezes a primeira) experiência profissional. E o que mais? Esse é um campo em aberto e com muitas possibilidades. Para conseguir galgar espaços, vamos precisamos mostrar qualidade, responsabilidade e compromisso com a instituição. E tudo bem que seja assim.

(20) Realizar um Seminário de técnicos é permitir que servidores lotados em setores muito próximos em termos de atividades afins compartilhem soluções e/ou pensem juntos em como resolvê-las.

(21) Há um tempo venho pensando que se você quer olhar para a complexidade do trabalho da universidade hoje, um ponto de vista privilegiado é olhar para a diversidade do trabalho de seus técnico-administrativos. Compra de materiais de laboratório de dentro e de fora do país; participar de feiras internacionais para firmar convênios de intercâmbio para nossos discentes; providenciar a locomoção por barco de um campus a outro (sim, no Norte do país); os mais diversos serviços dentro de uma editora universitária; os técnicos desportivos que muito auxiliam a qualidade de vida no campus; as nutricionistas do bandejão universitário; os servidores da área da segurança da informação da universidade em um mundo com ataques hacker, etc….. Isso para não falar dos trabalhos mais comuns administrativos nas unidades acadêmicas. Eu poderia continuar essa lista se quisesse. Aposto que quem me lê também. É preciso dar voz a essa diversidade. É preciso conhecê-la. Como gerir a universidade sem conhecer de perto esse cenário?

(22) O Seminário de Integração dos Técnicos Administrativos em Educação da UFRJ (SINTAE) poderia se chamar de forma mais enxuta Seminário dos Técnicos Administrativos em Educação da UFRJ. Também ficaria bom. Poderia ter outros nomes também. Aqui o que vale é a ideia. A palavra Integração que está no nome é uma provocação. Integração com quem? Com o quê? Integração entre trabalhadores técnicos. Integração desses trabalhadores com a universidade. Podemos pensar de maneira múltipla. Estou na torcida que outras universidades públicas e institutos federais sigam nessa direção de realizar seminários/congressos/encontros locais. Precisamos multiplicar esses espaços. O nome vai da criatividade de cada local.

(23) Ouvir seus trabalhadores dá um sentido democratizante à universidade. Além disso, pode melhorar o clima no ambiente de trabalho.

(24) Há uma diversidade real dentro da categoria dos técnicos administrativos. Há diferenças de idade, de cor de pele, de escolaridade, de titulação, de classe dentro do plano de carreira(o plano de carreira federal – PPCTAE – trabalha com as classes A,B,C,D,E), de gênero, de identidade de gênero, de classe social, de condições de vida e de moradia, de salário, de renda familiar, etc, etc. O “chão comum” é sermos todos Técnicos Administrativos em Educação. (E agora estou lembrando que Técnicos Administrativos em Educação são os trabalhadores das universidades federais e institutos federais. Os trabalhadores das universidades e institutos públicos afins de estados e municípios possuem outras diversas denominações). Um Seminário dos Técnicos Administrativos em Educação tem como chão comum sermos todos trabalhadores técnicos na universidade. Há unidade na diversidade. Mas o contrário também acontece. Há diversidade na unidade e ela aparece nos trabalhos apresentados. Um exemplo foram os trabalhos de mulheres trabalhadoras técnicas administrativas durante a pandemia de covid-19 esse ano. Diversos trabalhos apresentados no SINTAE UFRJ já apresentaram trabalhos de inclusão os mais diversos com mulheres, pessoas LGBTQI+, pessoas com deficiência, pessoas negras e negros, etc. O foco do Seminário da UFRJ é o trabalho desenvolvido por trabalhadores. E, mesmo com esse foco, as diferenças aparecem. Aparecem e nos enriquecem.

(25) Valorizar os trabalhadores técnicos administrativos e reconhecer seu trabalho e importância, dado todos os motivos expostos acima, é valorizar a própria universidade pública.

Nota:

Agradeço ao Agnaldo Fernandes e à Camila Baz pela leitura atenta e crítica do texto que resultou nessa versão final.

Gustavo Cravo de Azevedo é técnico em assuntos educacionais da Pró-reitoria de Pessoal da UFRJ

Um comentário sobre “Por que fazer um Seminário técnico-científico dos Técnicos Administrativos em sua Instituição Federal de Ensino Superior (IFES)?”

  1. Gustavo, parabenizo pela iniciativa tanto na criação do Seminário quanto na provocação da multiplicação dessa ideia para outras instituições públicas federais de ensino pelo país. Este texto é bastante esclarecedor quanto à importância de promover uma integração dos técnicos entre si, com a universidade, docentes, discentes e terceirizados. Mas para além disso, o texto também reforça o entendimento de que é preciso se movimentar para buscar união, conhecimento, reconhecimento e parcerias. E que não nos falte fôlego para continuar nesse processo rumo ao desenvolvimento, sempre de forma partilhada. Parabéns a todos os envolvidos para que o SINTAE exista e resista!

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